Sábado, 27 de Dezembro de 2008

 

Era uma vez um grande quintal onde reinava soberano e poderoso um galo.  Nada acontecia ali sem o seu consentimento, com uma força descomunal e coragem heróica, enfrentava qualquer perigo. Era especialmente orgulhoso de si mesmo, das suas armas poderosas, da beleza colorida das suas penas, e do seu canto mavioso. 

                                         

 

 

Todas as manhãs acordava com o clarão do horizonte e bastava que cantasse duas ou três vezes para que o sol se elevasse acima para o céu. "O sol nasce pela força do meu canto", dizia ele. "Eu pertenço à linhagem dos levantadores do sol. Antes de mim era meu pai; antes de meu pai era meu avô!" ...

                                      


 

 

Um dia uma jovem galinha de beleza esplendorosa veio morar no seu castelo  e o galo apaixonou-se por ela. A paixão correspondida culminou numa noite de amor inigualável. Depois do amor, já de madrugada, veio o sono. Amou profundamente e dormiu profundamente. 

 

 

                                        

 

 

As primeiras luzes do horizonte não o acordaram como de costume. Nem as segundas. ... Para lá do meio dia, abriu os olhos sonolentos para um dia azul, de céu azul brilhante e levou um susto de quase cair. Tentou inutilmente cantar, apenas para verificar que o canto não lhe passava pelo nó apertado da garganta. - "Então não sou eu quem levanta o sol?", comentou desolado para si mesmo. E caiu em profunda depressão.

 

 

                                        

 

 

O reconhecimento de que nada havia mudado no galinheiro enquanto dormia trouxe-lhe um forte sentimento de inutilidade e um questionamento incontrolável de sua própria competência. E veio aquele aperto na garganta.                                  


 

 

A pressão no peito virou dor. A angústia instalou-se definitivamente e fez com que ele pensasse que só a morte poderia solucionar tamanha miséria.

 

                                             

 

"O que vão pensar de mim?", murmurou para si mesmo, e lembrou-se daquele galinho impertinente que por duas ou três vezes ousou de longe arrastar-lhe a asa. O medo gelou-lhe os ossos. Medo. Angústia. Vagueava pelos cantos da capoeira tiste e desalentado.

 

                                               

 

 Tinha um profundo sentimento de impotência, humilhado, pensou em pedir ajuda aos céus e rezou baixinho, chorando. Talvez tenha sido este momento de humildade, o único na sua vida, e que o tenha ajudado a  lembrar-se  de que, numa árvore, lá no fundo do galinheiro, ficava o dia inteiro empoleirado um velho galo filósofo que pensava e repensava a vida do galinheiro e que costumava com seus sábios conselhos dar orientações úteis a quem o procurasse com seus problemas existenciais.

                                    

 

O velho sábio olhou-o  de cima de seu filosófico poleiro, quando ele vinha se esgueirando, tropeçando nos próprios pés, como que se escondendo de si mesmo. E disse:

                                     

 

-"Olá!  Não precisa de dizer nada, do jeito que em que está. Aposto que descobriu que não é você quem levanta o sol. Como foi que você se distraiu assim? Por acaso apaixonou-se?". A sua voz tinha um tom divertido, mas ao mesmo tempo compreensivo, como se tudo fosse natural para ele.

 

                                           


 

 

Como o velho galo o convidou, o galo angustiado empoleirou-se ao seu lado e contou-lhe a sua história. O filósofo ouviu cada detalhe com a paciência dos pensadores. Quando o consulente já se sentia compreendido, o velho sábio fez-lhe uma longa preleção:

 

                                        


 

 

"Antes, quando ainda achava que até o sol se levantava pelo poder do seu canto, digamos que você estava enganado. Para definir seu problema com precisão, você tinha o que pode ser chamado de a "ilusão de Omnipotência".

                                 
 


 

 

Então, pela mágica do amor, você descobriu o seu próprio engano, e até aí estaria óptimo, porque nenhuma vantagem existe em estar tão iludido. Fique a saber que ninguém acredita realmente nessa história do canto de galo levantar o sol. Para a maioria, isto é apenas simbólico: só os tolos tomam isto ao pé da letra. "Entretanto, agora", continuou o sábio pensador, " Está pensando que não tem mais nenhum valor, o que é de certa forma compreensível em quem baseou a sua vida numa tão grande ilusão. Contudo, examinando a situação com maior profundidade, você está apenas trocando uma ilusão por outra ilusão. O que era uma 'Ilusão de Onipotência' pode ser agora chamado de 'Ilusão de Incompetência'. Aos meus olhos, continuou o sábio, nada realmente mudou. Você era, é e vai continuar sendo, um galo normal, cumpridor de sua função de gerenciar o galinheiro, de acordo com a tradição dos galináceos.

 

                                         


 

 

O seu maior risco, continuou o pensador, é o de ficar alternando ilusões. Ontem era 'Ilusão de Onipotência', hoje, 'Ilusão de Incompetência'. Amanhã você poderá voltar à Ilusão de Onipotência novamente, e depois ter outra desilusão...

 

                                          
 

 

Pense bem nisto: uma ilusão não pode ser solucionada por outra ilusão. A solução não está nem nas nuvens nem no fundo do poço. A solução está na realidade". Após um longo período de silêncio, o velho galo filósofo voltou-se para os seus pensamentos. E o nosso herói desceu da árvore para a vida comum do galinheiro. 

 


No dia seguinte, aos primeiros raios da manhã, cantou para anunciar o sol nascente. E tudo continuou como era antes.




publicado por Sou às 22:27
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