Sábado, 18 de Julho de 2009

Era uma vez um casal que há muito tempo desejava ansiosamente ter um filho. Os anos iam passando, e o sonho não se realizava. Um dia, a mulher percebeu que Deus ouvira suas preces. Ela ia ter uma criança!
Por uma janelinha que havia na parte dos fundos da casa do casal, era possível ver, no quintal vizinho, um magnífico jardim cheio das mais lindas flores e das mais viçosas hortaliças. Mas em torno de tudo se erguia um muro altíssimo, que ninguém se atrevia a escalar. Ali morava uma feiticeira muito temida e poderosa.
Um dia, quando espreitava pela janelinha, a mulher admirou-se ao ver um canteiro cheio dos mais belos pés de rabanete que jamais imaginara. As folhas eram tão verdes e fresquinhas que abriram seu apetite. E ela sentiu um enorme desejo de provar os rabanetes.
A cada dia o desejo dela aumentava mais. Mas sabia que não poderia satisfazer o desejo e por isso foi ficando triste, abatida e com um aspecto doentio, até que um dia o marido se apercebeu e perguntou:
— O que está acontecendo contigo, querida?
— Ah! — Respondeu ela. — Se não comer um rabanete do jardim da feiticeira, acho que vou morrer logo, logo!
O marido, que a amava muito, pensou: “Não posso deixar minha mulher morrer… Tenho que conseguir esses rabanetes, custe o que custar!”
Ao anoitecer, encostou uma escada no muro, pulou para o quintal vizinho, arrancou apressadamente um punhado de rabanetes e levou para a mulher. Mais que depressa, ela preparou uma salada que comeu imediatamente, deliciada. Ela achou o sabor da salada tão bom, mas tão bom, que no dia seguinte seu desejo de comer rabanetes ficou ainda mais forte. Para sossegá-la, o marido prometeu-lhe que iria buscar mais um pouco.
Quando a noite chegou, pulou novamente o muro mas, mal pisou no chão do outro lado, levou um tremendo susto: de pé, diante dele, estava a feiticeira.
— Como se atreve a entrar no meu quintal como um ladrão, para roubar os meus rabanetes? — Perguntou ela com os olhos cheios de fúria. — Vais ver só o que te espera!
— Oh! Tenha piedade! — implorou o homem. — Só fiz isso porque fui obrigado! A minha mulher está grávida e viu os seus rabanetes pela nossa janela, sentiu tanta vontade de comê-los, mas tanta vontade, que na certa morrerá se eu não levar alguns!
A feiticeira acalmou-se e disse:
— Se é assim como diz, deixo levar quantos rabanetes quiser, mas com uma condição: irá dar-me a criança que a sua mulher vai ter. Cuidarei dela como se fosse sua própria mãe, e nada lhe faltará.
O homem estava tão apavorado, que concordou. Pouco tempo depois, o bebê nasceu. Era uma menina. A feiticeira surgiu no mesmo instante, deu à criança o nome de Rapunzel e levou-a embora.
Rapunzel cresceu e tornou-se a mais linda criança sob o sol. Quando fez doze anos, a feiticeira trancou-a no alto de uma torre, no meio da floresta.
A torre não possuía nem escada, nem porta: apenas uma janelinha, no lugar mais alto. Quando a velha desejava entrar, ficava em baixo da janela e gritava:
— Rapunzel, Rapunzel! Joga as tuas tranças!
Rapunzel tinha magníficos cabelos compridos, finos como fios de ouro. Quando ouvia o chamado da feiticeira, abria a janela, enrolava-os em tranças e deixava-as cair pela torre abaixo. As tranças caíam vinte metros abaixo, e por elas, como se de cordas se tratassem a feiticeira subia.
Alguns anos depois, o filho do rei daquele reino, cavalgava  pela floresta e passou perto da torre. Ouviu um canto tão bonito que parou, encantado.
Rapunzel, para espantar a solidão, cantava para si mesma com sua doce voz.
Imediatamente o príncipe quis subir, procurou uma porta por toda parte, mas não encontrou. Inconformado, voltou para casa. Mas o maravilhoso canto tocara no seu coração de tal maneira, que ele começou a ir para a floresta todos os dias, querendo ouvi-lo outra vez.
Numa dessas vezes, o príncipe estava descansando atrás de uma árvore e viu a feiticeira aproximar-se da torre e gritar: “Rapunzel, Rapunzel! Deita para baixo as tuas tranças!”. E viu quando a feiticeira subiu pelas tranças.
“É essa a escada pela qual se sobe?”, pensou o príncipe. “Pois eu vou tentar a sorte…”.
No dia seguinte, quando escureceu, ele se aproximou da torre e, bem embaixo da janelinha, gritou:
— Rapunzel, Rapunzel! Deita para baixo as tuas tranças!
As tranças caíram pela janela abaixo, e ele subiu.
Rapunzel ficou muito assustada ao vê-lo entrar, pois jamais tinha visto um homem.
Mas o príncipe falou-lhe com muita doçura e contou como seu coração ficara transtornado desde que a ouvira cantar, explicando que não teria sossego enquanto não a conhecesse.

 

Rapunzel acalmou-se, e quando o príncipe lhe perguntou se o aceitava como marido, reparou que ele era jovem e belo, e pensou: “Ele é mil vezes mais bonito que a feiticeira ”. E, pondo a mão dela sobre a dele, respondeu:
— Sim! Quero ir contigo! Mas não sei como descer… Sempre que vieres ver-me trás uma meada de seda. Com ela vou fazer tranças, e quando ficar pronta, eu desço contigo.
Combinaram que ele viria sempre ao cair da noite, porque a feiticeira costumava vir durante o dia. Assim foi, os dois todos os dias se encontravam e amavam-se. Até que um dia Rapunzel, vendo como a velha senhora demorava a subir pela torre e chegava ali tão ofegante, com inocência, perguntou à feiticeira :
— Diga-me, senhora, como é que lhe custa tanto subir, enquanto o jovem filho do rei chega aqui num instantinho?
— Ah, menina ruim! — Gritou a feiticeira. — Pensei que te tinha isolado do mundo, e afinal anda a enganar-me!
Furiosa, agarrou Rapunzel pelos cabelos e esbofeteou-a. Depois, com a outra mão, pegou uma tesoura e tec, tec! Cortou as belas tranças, largando-as no chão.
A raiva e o ciúme era tanto, que de seguida, levou a menina para um deserto e abandonou-a ali, para que passasse todo o tipo de privações e sofrimento, e se apercebesse o quanto conforto lhe tinha proporcionado e a paga fora ingratidão.
Na tarde desse dia
em que Rapunzel foi expulsa, a feiticeira prendeu as longas tranças num gancho da janela e ficou à espera. Quando o príncipe veio e chamou: “Rapunzel! Rapunzel! Deita para baixo as tuas tranças!”, ela deixou as tranças caírem para fora e esperou.
Ao entrar pela janelinha da torre, o rapaz não encontrou a Rapunzel, mas sim a terrível feiticeira. Com um olhar chamejante de ódio, ela gritou-lhe louca de raiva:
— Ah, ah! Vieste buscar Rapunzel? Pois ela não está aqui! E nunca mais a verás!

 Ao ouvir isso, o príncipe ficou fora de si e desesperado, atirou-se pela janela. O jovem não morreu, mas caiu sobre espinhos que danificaram os seus olhos e ficou cego.
Desesperado e cego ficou preambulando pela floresta, alimentando-se apenas de frutos e raízes, sem fazer outra coisa do que chorar e caminhar sem sentido e orientação.
Passaram-se os anos. Um dia, por acaso, o príncipe chegou ao deserto onde  Rapunzel vivia, na maior tristeza, com os seus filhos gémeos, um menino e uma menina, que ali tinham nascido.
Ouvindo uma voz que lhe pareceu familiar, o príncipe caminhou na direcção de Rapunzel. Assim que chegou perto, ela reconheceu-o e se atirou-se nos seus braços, a chorar.
Duas das lágrimas da moça caíram nos olhos dele e, no mesmo instante, o príncipe recuperou a visão e ficou de novo a ver.
Então, loucos de felicidade, os dois e as crianças, voltaram para o seu reino, onde foram recebidos com grande alegria e ali viveram felizes. Da feiticeira, não se soube mais nada, Talvez viva ali errando amargurada e trancada naquele muro onde crescem as mais lindas flores e hortaliças verdejantes.

 

 

 

 


conto dos irmãos Grimm, adaptado



publicado por Sou às 00:29
mais sobre mim
Julho 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO