Sábado, 18 de Julho de 2009


 

                

 


Medusa era um ser terrível, embora seja um monstro, é considerada pelos gregos uma das divindades primordiais pertencente à geração pré - olímpica. Só depois é tida como vítima da vingança de uma deusa. Das  três górgonas, é a única que é mortal. Três irmãs monstruosas que possuíam cabeça com cabelos em forma de serpentes venenosas, presas de javali, mãos de bronze e asas de ouro. O olhar delas  transformava em pedra aqueles que a fitavam. Como as suas irmãs, Medusa representava as perversões. Euríale, simbolizava o instinto sexual pervertido, Ésteno a perversão social e Medusa a pulsão evolutiva, ou seja, a necessidade de crescer e evoluir estagnada. Medusa também é símbolo da mulher rejeitada, e por ter sido  rejeitada é incapaz de amar e ser amada, odeia os homens nas figura do deus que a viola e abandona  as mulheres, pelo fato de ter deixado de ser uma mulher bela para ser monstro por culpa de um homem e de uma deusa. Medusa é a própria infelicidade; os seus filhos não são humanos, nem deuses, são monstros. Medusa é uma górgona, apavorante, terrível.

 

O mito de Medusa tem várias versões, mas os pontos principais refletem estas características acima. Como Midas ela não pode facilitar a proximidade, pois se Midas  transformava tudo em ouro com apenas um toque, ela é mais solitária mais trágica, não pode sequer olhar, pois tudo o que olha vira pedra, Medusa carrega a maldição de tirar a vida, o movimento, com um simples olhar, também não pode ser vista de frente, não se pode ter idéia de como ela é sem ficar paralisado e morrer.

 

Diz o mito que outrora a Medusa fora uma belíssima donzela, orgulhosa da sua beleza, principalmente dos seus cabelos.Confiante da sua beleza  resolveu disputar o amor de Zeus com Minerva. Esta enraivecida transformou-a num monstro com cabelos de serpente. Outra versão diz que Zeus a teria raptado e violado no interior do templo de Minerva e esta mesmo sabendo que Zeus a tinha traído, não perdoou tal ofensa. Medusa é morta por Perseu, que também foi rejeitado e com sua mãe Danae são trancados numa arca e atirado ao mar, de onde foi resgatado por um pescador que o levou ao rei Polidectes que o criou com sabedoria e bondade. Quando Perseu ficou homem, Polidectes enviou-o para a trágica missão de destruir a Medusa. Para isto receberia o auxílio dos deuses. Perseu usando sandálias aladas pôde pairar sobre as górgonas que dormiam, então usando um escudo mágico de metal polido, refletiu a imagem da Medusa como num espelho e decapitou-a com a espada de Hermes. Do pescoço ensanguentado de Medusa saíram dois seres que foram gerados do conúbio com Poseidon. O gigante Crisaor e o cavalo Pégaso.

O sangue que escorreu de Medusa foi recolhido por Perseu. Da veia esquerda saia um poderoso veneno, da veia direita um remédio capaz de ressuscitar os mortos. Ironicamente, trazia dentro de si o remédio da vida, mas não o sabia usar, sempre usou o veneno da morte.

 

" Três irmãs, três monstros, a cabeça aureolada de serpentes venenosas, presas de javalis, mãos de bronze asas de ouro: Medusa, Ésteno e Euríale. São símbolos do inimigo e  têm que se combater. São as deformações monstruosas da psique, consoante Chevalier e Gheebrant ( Dictionnaire des Symboles, Paris Robert Laffont, Júpiter, 1982)  que se devem a  forças pervertidas das três pulsões do ser humano: sociabilidade, sexualidade, espiritualidade" .(Brandão, ed. Vozes 1987).

 

Tenho observado em pacientes em terapia, alguns processos que remetem ao mito de Medusa. Estes relatam um sofrimento imenso devido a dificuldades em perceber a própria imagem. Quem sou eu? A grande pergunta para qual toda a humanidade busca respostas. Para estas pessoas, como se tivessem uma imagem invertida refletida no espelho, a pergunta é, o que eu não sou. Incapazes de mostrar uma imagem positiva, como os filhos monstros de Medusa, erram pela vida alinhando possibilidades para construir a sua monstruosidade. Estes filhos de Medusa, embora filhos de um deus, herdam da mãe a figura monstruosa a que se viu presa a bela Medusa. A duplicidade da Mãe  acompanha-os. Pégaso unido ao homem é o Centauro, monstro identificado com os instintos animalescos. Mas tambem é fonte, como o seu nome simboliza,  é alado , é fonte de da imaginação criadora sublimada e a sua elevação. Temos em Pégaso os dois sentidos ,a fonte e as asas. Símbolo da inspiração poética representa a fecundidade e a criatividade espiritual.

Pégaso talvez represente o lado belo de Medusa, que ficou escondido, que não podia ser visto, pois como vimos ela representava a pulsão espiritual estagnada. Pégaso é a espiritualidade em movimento. Crisaor é apenas um monstro, pai de outros monstros Gerião de três cabeças e Équidna. Équidina herda da avó o destino trágico. O seu corpo metade mulher, de lindas faces e belos olhos, tem na outra metade uma enorme serpente malhada, cruel . É a bela mulher de gênio violento. Incapaz de amar e devoradora de homens. Uma reedição de Medusa. Continuará a saga ancestral de odiar os homens e gerar monstros.

 

Com uma imagem distorcida, como dizíamos anteriormente, estes "filhos de Medusa" não podem ver-se a si mesmos como são, e sempre se imaginam bem piores até mesmo do que poderiam ser.

 

Alguns autores como Melanie Klein e Alexander Lowen falam que a imagem de si própria  origina-se no olhar da mãe. A forma como a criança é olhada, é vista, o que ela percebe de rejeição ou aprovação é captado no olhar da mãe. Os tristes filhos de Medusa não podem vê-la, tambem não podem ser vistos por ela. Esta mãe de mãos de bronze não pode acariciar, o seu olhar paralisa, seus os dentes de javali impedem que beije, mas quando poderia ser atingida pelo filho ela se torna divina, tem asas de ouro, é um alvo móvel. Medusa incorpora para estas personalidades de estrutura depressiva o mito da mãe divina, vista pelo seu filho como a santa mãe, ela não gera filhos felizes, apenas trágicos. Não pode ser mulher, é santa. A princípio como Jocasta, depositária da paixão do filho, Medusa não o ama, fazendo-o sentir-se torpe e culpado pelo seu amor incestuoso. Como recurso ele a santifica para continuar amando-a e justificando a sua rejeição como forma de protege-lo da sua própria torpeza. Desprovida como santa de instinto sexual, não pode falar ao seu filho da sexualidade feminina, não pode dizer-lhe o que é uma mulher. Inacessível como santa, ela torna-se monstro. Monstro que é percebido pelo filho mas que se nega a ser visto como é. Medusa não olha, não acaricia, não orienta. Paralisa. Não é por acaso que o sentimento da depressão é a inércia, a perda da vitalidade. Como se tivessem transformados em pedra pelo olhar da mãe, os filhos de Medusa erram pela vida sem espelhos que traduzam a sua imagem. São monstros cuja criatividade afogada na pedra de suas almas precisa ser libertada. Precisam encontrar um espelho  que lhes diga quem são ou pelo menos, quem não podem ser.

 

No trabalho terapêutico de pacientes com depressão, tenho observado que há uma enorme dificuldade em perceber a figura materna. Ela é idealizada a partir de perfis culturais que parecem não poder ser questionados. Frases como: "qual a mãe que não ama seus filhos?" ou "toda mãe é uma santa" traduzem a situação que impede a visão do real. São pessoas desprovidas de afeto, mas com uma enorme necessidade de carinho, que no entanto não suportam proximidade, de uma vez que não confiam em ninguém, pois não acreditam que podem ser amados. Sentem-se como  monstros. Algum tempo  mais adiante no processo chegam a perceber nitidamente que não foram amados, mas como se esquivando de perceber a profundidade dessa dor negam afirmando que isto é normal, diante da sua torpeza. Falam de mães ocupadas, falam de mães vaidosas ressentidas da perda da beleza com o nascimento do filho. Mas essas referências são quase superficiais.

 

Quando conseguem aproximar-se da visão real dessa mãe de garras e mãos de bronze os sintomas  multiplicam-se, aumenta a depressão e com esta a paralisia, a inércia. Podem passar vários dias deitados, sem trabalhar ou realizar um mínimo de esforço. Ver a Medusa é petrificar-se. Muitos desenvolvem sintomas de dor de cabeça, medo de doenças fatais como câncer, AIDS (doenças ligadas a amputação, decapitação, ao sangue, a sexualidade e sintomas de castração). As fantasias de autopunição  multiplicam-se, relatam possibilidades de acidentes de automóvel ou com armas de fogo. Têm fantasias de traição com amigos ou companheiras. São pessoas trágicas. Todos relatam uma ausência de alegria, mesmo quando estão em ambientes alegres. Uma profunda inveja do prazer do outro assola-os. Muitos perseguem a fantasia de resolver a falta com postos de poder e dinheiro. Aumenta a dor. O poder que tanto ansiaram ou o dinheiro que tudo resolveria aumentam a profundidade do abismo. Ter tudo e não sentir-se nada é muito mais terrível. O abismo abre-se cada vez mais como as entranhas da mãe monstruosa. Restam- lhesas fantasias suicidas. É preferível morrer a sentir-se um monstro. Muitos realizam esta fantasia como a ultima tentativa de atingir a Medusa. Mas ela nada sentirá, o seu ódio pelo homem que a violou transmite-se ao filho que gerou. A sua pior inimiga, Minerva ( a deusa da inteligência), deixa-lhe como legado o ódio às mulheres. Não pode dizer ao filho como lidar com elas, como gerar com elas novos filhos, amados e sadios. A sua descendência, embora não precise ser, deverá ser de monstros gerando outros monstros. Fala-se da hereditariedade da depressão. Penso que se houver é muito mais transmitida em gestos e pelo ambiente trágico e desprovido de prazer em que estas novas crianças nascerão. Os filhos de Medusa não podem ter mulheres amorosas, isto a denunciaria. Raramente, quando encontram estas mulheres não podem confiar nelas e abortam assim a possibilidade de obter o amor que os revitalizaria.

 

Mas, apesar das dificuldades e das fantasias autopunitivas, Medusa pode ser vista. Através do espelho do terapeuta e deste como espelho, a figura de medusa pode ser vista. Se a relação terapêutica se dá de forma transferencial, amorosa, confiante, o espelho refletirá imagem da Medusa, como ela é. Incapaz de amar, cruel e terrível, górgona, apavorante. Como resultado o filho descobrirá que o monstro é ela, e não ele. Da morte dela resulta a sua vida, e como Pégaso, ele ganha os céus, liberto, simbolizando a vitória da inteligência e a sua união com a espiritualidade, a sensibilidade que sempre existiu naquele que se julgava o monstro. Como Pégaso, se não se aferrar ao seu aspecto de humano comum, em revoltas descabidas e em vinganças inúteis poderá compreender a tragédia de Medusa e perdoá-la. Não se transformará no monstro Centauro, identificado com o instintos animalescos e a sexualidade desregrada. Se incorporar Centauro errará pela vida sem pertencer a ninguém. Homem de muitas mulheres, mas sem nenhuma. Será monstro preso à sua mãe monstruosa. Incapaz de amar como ela. Se assumir a sua condição de Pégaso, será fonte de todas as belezas, da mais pura elevação, da criatividade, da fidelidade. Não é por acaso que Pégaso simboliza a Poesia.

 

As filhas de Medusa também apresentam como ela a impossibilidade de ser amada. São mulheres tristes de trágica figura, mesmo quando belas. Condenadas a serem crianças eternas presas às entranhas da mãe, não podem deixar de ser filhas-monstro, a não ser para poderem ser mães- monstro. Filhas da violação e do abandono (é assim que Medusa lhes transmite a sua relação com os homens) são mulheres-meninas, incapazes de perceber o homem a não ser como brinquedo, ou como fonte de sofrimento. Unem-se quase sempre a homens cruéis que possam justificar a idéia da mãe, da impossibilidade de ser feliz com um homem. Quando raramente encontram o amor, destroem-no destruindo o homem amado, como faz no mito Équidna, legítima herdeira de Medusa. Mulheres de amores infelizes, herdam de Medusa as garras, as mãos de bronze, e as asas de ouro. Vítimas de novos abandonos reforçam em cada experiência infeliz a ideia da mãe. Também possuem o olhar terrível. Das uniões infelizes geram filhos infelizes que carregam presos a si mesmas não por amor, mas pelo terror que podem gerar. Novas medusas. Se pela procura puderem chegar ao espelho, podem ser deusas, podem ser Pégasos, ou até mesmo Poesia uma das Musas; se não seguirão os seus destinos de mulheres- crianças gerando filhos que não podem amar e que no máximo lhes servem de brinquedo para suas brincadeiras cruéis de paralisar e aterrorizar pessoas. Seguem a saga da Medusa. Mulher que se torna monstro, pelo descuido de homem e pela crueldade de uma deusa.

 

Mas e as mulheres Medusa? O que lhes resta? O próprio mito nos mostra.

 

Perseu filho de Danae, mãe amorosa, que segue seu filho no destino que lhes foi dado pelo pai terrível, que ouviu de um mago que seria assassinado pelo neto. Trancados numa arca e atirados ao mar são salvos por Poseidon que os encaminha a uma praia tranquila onde são recolhidos por um pescador e levados ao rei Polidectis, que o educa amorosamente como filho. Perseu é filho de mãe amorosa, que tudo perde para seguir seu filho. Que abandonada por um homem, o próprio pai, atirada à morte por ele, não transforma isto em ódio à masculinidade. Perseu também. O seu abandono pelo avô e pelo pai que não o salva, é no entanto criado por um pai amoroso. Perseu e Danae são o oposto de Medusa. Não permitiram que a sua desgraça se transformasse em ressentimento para com a humanidade. Foram alcançados e salvos pelo amor humano. Ao contrário de Medusa, da qual ninguém pode se aproximar. Somente Perseu poderia destruir Medusa, ele pode ser visto exatamente como seu contrario no espelho, ela mulher, ele homem, ela ressentida, ele perdoando, ela sem possibilidade de resgate, ele salvo pelo amor da mãe que o acompanha, pelo cuidado de um deus e pelo amor de um pai-rei. Tudo o que faltou a Medusa que precisa ser vista, no espelho, para poder ser destruída e libertar Pégaso. Medusa tem que ser compreendida para alem do seu aspecto monstro, como mulher-criança, frívola, presa a beleza passageira, desafiando a grande deusa, a inteligência, a quem desafia e a quem odeia. Para depois de morta servir a ela, Minerva, mesmo que seja como esfinge no seu escudo. Guiado pela inteligência e sabedoria de Minerva, que corrige o seu erro de ter criado um monstro, o olhar de Medusa agora é útil, tem aplicabilidade, destroi o inimigo. Já não mata os que ama.

 

Se a transferência não se realiza, se a relação terapêutica não se faz, e disse alguém que a terapia é uma função de amor, os filhos de Medusa verão no terapeuta a imagem dela e fugirão. Tudo estará perdido, o amor não poderá realizar seu resgate, e Medusa permanecerá eternamente viva destruindo e paralisando até que se destrua ou destrua seus filhos.

 

 


 

 

Marise de Souza Morais e Silva Santos



publicado por Sou às 00:37
Tenho 48 anos, e há cerca de 10 dias, fui violentamente agredida por minha mãe, hoje com 70 anos, sendo certo que essa historia de agressões me acompanharam por toda a vida. Engravidei com 18 anos, apenas porque era, na época, o único meio de me ver livre da perseguição de minha mãe: obrigar alguem a se casar comigo. Evidentemente meu casamento não deu certo, mas segui minha vida de uma forma pouco habitual. Tive uma série de relacionamentos, vivi com pelo menos quatro tipos de homens diferentes de mim em tudo, mas me cansava deles e partia para outras aventuras. Nunca voltei a casa de meus pais, mesmo levando comigo dois filhos do primeiro casamento, mas nunca consegui verdadeiramente me livrar de minha mãe. Por um tempo, acreditei que agi assim por amar meu pai, pois ele sempre me fazia sentir culpa, dizendo que tinha que perdoar minha mãe, que não devia abandona-la. Jamais imaginei que minha história era velha conhecida dos terapeutas. Foi com surpresa, que em busca de consolo, coloquei no google a palavra mãe monstro e me deparei com um texto - O eleito e o seduzido - que radicalmente mudou minha vida. Tive a impressão de que falavam de mim, de meus irmãos, de minha mãe... Ainda estou chocada. Tenho dentro de mim uma bondade anormal, que hoje nem sei se acredito mesmo nela.... Ainda não tive coragem para procurar pela terapia, mas me sinto mais forte depois que entendi parte de minha história. Agora mais uma coisa me aflige... será que não sou como ela? Será que vou conseguir ficar longe ou tirar de meu peito o ódio que só cresce em relação a ela? Não será tarde? Temo pelas respostas que podem se revelar.... Minha coragem se confunde com a covardia e a culpa por estar consciente de não amar uma pessoa que deveria ser amada e respeitada. Procuro respostas.
silvia helena pereira a 17 de Março de 2011 às 00:12

Perdoar para mim não é esquecer, perdoar é compreender que somos individuais e que não temos a capacidade de compreender o que vai na cabeça dos outros. Assim "perdoar" para mim é deixar ir, não se sentir no direito que essas pessoas reparem as suas "falhas" em relação a nós, nem adoptar nenhuma agressividade hostil em relação a elas. Um afastamento é muito terapêutico. Nesse processo é saudável também sentir raiva e desafecto, assim como não nos colocar a jeito do "agressor". Claro que você não é igual à sua mãe, não há dois cérebros iguais, sabe isso pelas impressões digitais,... Um abraço
Sou a 7 de Julho de 2011 às 09:29

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