Domingo, 17 de Janeiro de 2010

 

 

Sistema heliocêntrico

Aristarco de Samos (século III a.C.) foi o primeiro a  especular e ensinar o sistema heliocêntrico. De acordo com Aristarco, o Sol está imóvel no centro do universo, e à sua volta os planetas descrevem órbitas circulares; as estrelas fixas encontram-se numa esfera cristalina. Avaliou que as distâncias entre as estrelas eram extraordinariamente superiores à distância entre Sol e Terra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Casella di testo: Imagem de As distâncias e os tamanhos do Sol e da Lua, de Aristarco(cópia grega do séc. X, Biblioteca Vaticana).

 

 

 

Não havia provas convincentes de que a realidade estivesse de acordo com esta teoria, mas ela justificava plenamente a regularidade do movimento dos planetas. Por outro lado, havia argumentos de peso contra ela, baseados nos conhecimentos e no “bom senso” da época, proveniente da observação de fenómenos naturais. O argumento de maior importância que se punha e era dificil de refutar é o seguinte:

Se a Terra gira em torno do Sol, é necessário que também gire em torno de si, para produzir o dia e a noite. Se ela gira em torno de si, deve haver um movimento relativo terra-ar e, portanto, para quem está parado na superfície da Terra, um vento com a mesma velocidade. Se estou andando a cavalo, pensavam, quanto mais rápido andar o cavalo, mais veloz o vento que sentirei, devido ao movimento relativo cavalo-ar. Se estou parado, não sobre o cavalo, mas sim na superfície da Terra, e ela está “correndo” em sua rotação, deverei sentir um vento correspondente. E qual a velocidade deste vento? Os gregos já tinham feito o cálculo. Mais precisamente, Eratóstenes, medindo a diferença de latitude entre Siena e Alexandria, e medindo a distância entre estas duas cidades, determinou a circunferência da Terra, no Equador. Foi concluído que, se a Terra girasse sobre si mesma, a velocidade no Equador seria de cerca de 1.440 km/h. E esta seria a velocidade do vento causado pela rotação da terra, velocidade essa suficiente para destruir florestas, veículos, construções, etc. Na realidade, a velocidade é ainda maior: 1.670 km/h. Este vento não existe. Logo: a Terra não pode ter o movimento de rotação requerido pelo sistema heliocêntrico para formar dias e noites.

 

Outro argumento contra o sistema heliocêntrico : Se uma pedra for atirada verticalmente para cima, enquanto ela sobe e desce, a Terra  desloca-se e a pedra chocar-se-á com o terreno num ponto afastado do ponto de lançamento. Se, após o seu lançamento, a pedra levar dez segundos para chocar-se com o terreno, no Equador ela estaria a quatro quilômetros a oeste de seu ponto de lançamento! 

 

 

Ilustração representando o sistema heliocêntrico

(extraída de Harmonia Macrocosmica, de Andreas Cellarius, 1660-1).

 

 

 

 

 

 

Por ser complicado refutar estes argumentos a  teoria heliocêntrica foi abandonada, voltando a ser apresentada muitos séculos depois por Nicolau Copérnico, nascido em Torun, Polônia, em 1473, e falecido em 1543.

Copérnico estudou astronomia e matemática na Universidade de Cracóvia e, por três anos, Direito Canônico em Bolonha, Itália. Também freqüentou as Universidades de Roma, Pádua e Ferrara. Em 1501 aceitou o posto de cónego da Catedral de Frauenburg, cidade onde fez suas observações astronómicas.

Reintroduziu o sistema heliocêntrico de Aristarco, com modificações, em dois trabalhos:

– em 1530: “Comentários sobre as Hipóteses da Constituição do Movimento Celeste”;

– em 1543: “Sobre a Revolução dos Corpos Celestes”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 

Acima, um retrato de Copérnico pintado na sua cidade natal, Torun, no início do século XVI. Ao lado, ilustração do sistema heliocêntrico feita pelo astrônomo polonês no seu livro De revolutionibus orbium coelestium (“Sobre as revoluções das esferas celestes”), publicado em 1543.

 

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este último trabalho foi dedicado ao Papa Paulo III, que o aceitou. O sistema proposto por Copérnico foi usado pela Igreja para reformar o calendário litúrgico, permitindo prever a data da Páscoa e, a partir dela, as demais datas do ano litúrgico. O sistema geocêntrico de Ptolomeu havia levado a erros cumulativos importantes. Os cálculos para definir as datas litúrgicas foram enormemente simplificados com o sistema heliocêntrico. Estes cálculos foram feitos pelo jesuíta e matemático Cristóvão Clavius.

Segundo Copérnico, o Sol ocupa o centro do sistema planetário. Em torno dele os planetas giram em órbitas circulares, na seguinte ordem: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno.

c) Sistema misto

Proposto por Tycho Brahe (1571-1630), astrónomo dinamarquês. Tornou-se conhecido e admirado pelas medidas precisas que realizou, com instrumentos adequados, construídos por ele mesmo com muita perfeição. O seu sistema é considerado por alguns autores como um sistema “conciliatório”. No centro do universo, a Terra, imóvel. À sua volta giram a Lua e o Sol. Os demais planetas giram em torno do Sol, acompanhando-o em seu movimento em torno da Terra. À distância, a esfera das estrelas.

 

 

 

2.3. Os Eclesiásticos e a Astronomia

Embora a maioria dos eclesiásticos estivesse de acordo com a teoria geocêntrica, havia Cardeais e outros eclesiásticos adeptos do sistema de Copérnico ou defensores de Galileu. Citamos uns poucos4:

– O beneditino Benedetto Castelli diz, referindo-se ao sistema geocêntrico, defendido por Aristóteles, disse: “Aristóteles errou nessa, como em muitas outras coisas”.

– O Cardeal Maffeo Barberini (mais tarde Urbano VIII) opôs-se a que Galileu fosse declarado herético, bem como o Cardeal Luigi Caetani.

– O mesmo Barberini, já eleito papa, declarou ao Cardeal Zoller que a Igreja não tinha condenado, nem estava por condenar, a teoria heliocêntrica como herética, mas apenas como temerária.

– Niccolò Riccardi, Mestre do Sacro Palácio, estava convencido de que o heliocentrismo não era matéria de fé e de que, de forma alguma, convinha comprometer nele as Escrituras.

– Em 1632, na iminência do segundo processo, a Galileu Castelli professou sua fé copernicana a Vincenzo Maculano, Comissário do Santo Ofício:  Relembramos que o sistema heliocêntrico foi usado para a reforma do calendário litúrgico.

 

2.4. A Interpretação da Bíblia

Desde os  Padres dos primeiros séculos do Cristianismo, já eram conhecidos outros sentidos, além do estritamente literal, ao ser interpretada a Bíblia. Henri de Lubac destaca que na exegese medieval se procedia à leitura da Sagrada Escritura segundo os quatro sentidos: literal, histórico, alegórico e moral.

Entretanto, no tempo de Galileu a interpretação da Bíblia era feita de modo mais rígido e, em geral, atendo-se exageradamente ao sentido literal do texto. Como causa principal desse modo de proceder, esteve o protestantismo, que, desde o manifesto de Lutero, em 1517, vinha promulgando a livre interpretação da Bíblia. Para evitar os descréditos que estavam sendo causados à igreja católica romana,  a Igreja passou a  fixar -se mais no sentido literal das palavras da Bíblia, enquanto não houvesse motivos fortes que desaconselhassem tal proceder. Cada época possui paradigmas que limitam o campo de visão de toda uma comunidade. De modo que estes acontecimentos têm que ser analisados no contexto do seu tempo, hoje isso parece-nos aterrador, julgamos de modo fácil sem nos atermos aos costumes de então, no entanto, há apenas  quatrocentos anos, a cultura, os costumes, as leis eram muito diferentes.

 

 Vejamos então como era a mentalidade religiosa nos séculos XVI/XVII  e como em grupos que se tinham separado da igreja romana por estarem em desacordo com os dogmas e a sua postura analisavam o heliocentrismo, como se manifestaram alguns  dos autores protestantes diante do novo sistema:

“Lutero  julgava que as idéias de Copérnico eram idéias de louco, que tornavam confusa a astronomia.

“Melancton, companheiro de Lutero, declarava que tal sistema era fantasmagoria e significava a rebordosa das ciências.

“Kepler (1571-1630), astrónomo protestante contemporâneo de Galileu, teve que deixar sua terra, o Wurttemberg, por causa de suas idéias copernicanas.

“Em 1659, o Superintendente Geral de Wittemberg, Calovius, proclamava altamente que a razão se deve calar quando a Escritura falou; verificava com prazer que os teólogos protestantes, até o último, rejeitavam a teoria de que a Terra se move.

“Em 1662, a Faculdade de Teologia protestante da Universidade de Estrasburgo afirmou estar o sistema de Copérnico em contradição com a Sagrada Escritura.

“Em 1679, a Faculdade de Teologia protestante de Upsala (Suécia) condenou Nils Celsius por ter defendido o sistema de Copérnico.

“Ainda no século XVIII, a oposição luterana contra o sistema de Copérnico era forte: em 1774 o pastor Kohlreiff, de Ratzeburg, pregava energicamente que «a teoria do heliocentrismo era abominável invenção do diabo»”8.

 

 OS PROCESSOS

3.1. O primeiro Processo (1616)

Galileu soube de um aparelho inventado pelo holandês Hans Lippershey que permitia ver objetos afastados com nitidez (telescópio). A partir dessas informações construiu um telescópio com melhores características e com ele fez muitas descobertas, tais como:

– as manchas do Sol (que não é, pois, o corpo perfeito descrito por Aristóteles);

– as crateras da Lua (que, portanto, não é a esfera lisa, perfeita, admitida por Aristóteles);

– a Via Láctea é constituída por um grande número de estrelas;

– Júpiter possui Luas (Galileu descobriu quatro), o que demonstrava que a Terra não era o centro de tudo;

– Vênus tem fases como a Lua; pelo que, muito provavelmente, deveria girar em torno do Sol.

Estas descobertas foram publicadas em 1610 e trouxeram uma grande popularidade a Galileu. Entre os que o cumprimentaram e admiravam seu trabalho, estavam Kepler e Clavius.

Por outro lado, os aristotélicos reagiram violentamente, inclusive duvidando da competência de Galileu como pesquisador: manchas solares e relevo da Lua dever-se-iam a sujeira nas Lentes do telescópio; outras descobertas não passariam de ilusões de óptica.

Em 1611, Galileu esteve em Roma e foi muito homenageado por cientistas e nobres. Foi recebido como membro da Accademia dei Lincei, a mais antiga academia científica da Itália. Os jesuítas (muitos dos quais eram professores e astrónomos) dedicaram-lhe uma festa académica no Colégio Romano, com a presença de condes, duques, muitos prelados e alguns Cardeais. O próprio Papa Paulo V concedeu-lhe audiência.

Os problemas começaram com a publicação do livro Trattato contro il moto della Terra (“Tratado contra o movimento da Terra”), do físico e teólogo Ludovico delle Colombe, neste mesmo ano (1611). Ludovico elogiava Galileu, mas citava trechos da Bíblia e argumentos dos  Padres para demonstrar a tese geocêntrica. Eis algumas das citações: Fundaste a terra em bases sólidas, que são eternamente inabaláveis (Sal 103,5); Uma geração passa, outra vem; mas a Terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar ao seu lugar (Ecl 1, 4-5).

O problema é que Galileu, em vez de responder com argumentos físicos, usou argumentos bíblicos, citando outro trecho que parece defender a tese contrária: Diante dele estremece a terra inteira (Sal 95,9). (...) Galileu foi processado duas vezes pelo santo ofício pela sua firme defesa do copernicanismo e da última vez, em 1633 foi condenado e persuadido, ou coagido  a abjurar para que a sua vida fosse poupada. Com a pena de  prisão domiciliária, inicialmente esteve acompanhado, mas mais tarde vai para a sua casa onde estava impedido de escrever e de falar com  alguém sem autorização prévia. Mas a um cientista não pode ser pedido que ele deixe de pensar, e continuou a escrever, até não poder mais.


fontes:

www.clerus.org/clerus/dati/2009-01/02-13/O_CASO_GALILEU_I.html



publicado por Sou às 21:04
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