Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

"Um antigo psiquiatra, já falecido,  incentivou-me nos primeiros passos da psiquiatria, não se cansava de dizer que a maior causa de aborrecimentos do ser humano é outro ser humano, muito embora dissesse também, que a maior causa de alívio desses aborrecimentos é outro ser humano. 

Interessa aqui falar um pouco da primeira parte dessa questão, ou seja, da má influência do nosso próximo no nosso estado de espírito. Se a colocação de meu antigo mestre for verdadeira, e parece que é, então para o bem viver emocional devemos aperfeiçoar a nossa capacidade de convivência com nosso semelhante.

Ao falar sobre a capacidade dos  nossos semelhantes em aborrecer-nos estamos a falar das frustrações, mágoas e irritabilidade que os nossos semelhantes nos podem produzir. Conforme veremos adiante, de antemão podemos dizer que as nossas frustrações, mágoas e irritabilidade, são proporcionais àquilo que esperamos dos outros; quanto mais esperamos, mais sofremos.

Sempre que esse fato é comentado alguém  pergunta quase angustiado: Então não devemos esperar nada de ninguém? Não, não devemos. E é bom acostumarmo-nos com essa ideia. Quanto mais esperamos de alguém, mais corremos o risco de frustrações, mágoas e irritabilidade. 

Portanto, é bom saber que de tudo o que fizermos, não podemos esperarmos nada em troca, fazemos por uma questão de consciência, isso deixa-nos bem connosco. Se algo de bom vier dos nossos semelhantes será um lucro agradável e, se não vier nada, será normal.

O ser humano, apesar dos milhares de anos conseguindo se adaptar à natureza, conseguindo sobreviver às intempéries, aos terramotos, aos animais ferozes, às epidemias e a toda sorte de dificuldades e perigos que o mundo oferece, continua hoje sofrendo e sendo vítima daquilo que sempre lhe pareceu o menor dos perigos: seu semelhante e ele mesmo.

É muito difícil tratar dessa importante questão do nosso relacionamento com os outros e connosco mesmo de forma resumida e prática. Primeiro, devido ao risco de falar o óbvio e aquilo que todos já sabem e, segundo, corre-se o risco de falar coisas desagradáveis de se ouvir.

Durante toda nossa história podemos experimentar algum sofrimento, mágoa ou desencanto com o nosso próximo e, não obstante, este sofrimento, mágoa e desencanto serão tão maiores quanto menos nos conhecermos e menos conhecermos o nosso próximo. Aliás, conhecer nosso próximo só é possível na medida em que conhecemos nós mesmos.

Uma das maiores dificuldades de convivência entre as pessoas se baseia-se fato do ser humano apresentar-se um ser social por natureza e, simultaneamente, um ser egocêntrico. Por sermos sociais, somos incapazes de viver sozinhos no mundo e, por sermos egocêntricos somos, ao mesmo tempo, incapazes de conceder aos nossos semelhantes as mesmas regalias que nos concedemos. Portanto, sozinhos não conseguimos viver e, paradoxalmente, com o outro também é difícil.

Para compensar essa peça que a natureza nos pregou, fomos dotados de um atributo muito especial: somos capazes de mudar. Trata-se do livre arbítrio ou seja, da capacidade de mudanças, de procurar um amanhã melhor que o hoje. Normalmente a nossa evolução acontece através de mudanças em posturas e em atitudes diante dos semelhantes e da vida. Neste trabalho vamos falar sobre as dificuldades da pessoa em conviver com seu semelhante.

Estando a pessoa a sofrer por  alguma mágoa ou frustração produzida por outra pessoa ou por circunstâncias do destino, será melhor pleitear uma mudança na sua própria postura diante dos outros e do mundo para que não se magoe e nem se frustre. Essa é a atitude mais sensata principalmente porque não  temos  acesso e não podemos mudar o outro e nem o mundo.

Inicialmente, vamos considerar que a mágoa, o aborrecimento, a irritabilidade e a frustração são sempre de autoria da pessoa que se sente magoada, aborrecida, irritada e frustrada. São sentimentos que nascem na própria pessoa, portanto, a culpa, no sentido involuntário do termo, deve recair sobre quem está magoado, aborrecido, irritado e frustrado. É a pessoa quem alimenta tais sentimentos, é ela quem se deixa magoar, frustrar e aborrecer.

Assim sendo, em termos de sentimentos, o raciocínio mais correto é dizer que a pessoa deixou-se magoar por fulano e não que foi magoada por ele. Não deve ser fulano quem nos irrita mas sim, nós nos deixamos irritar por fulano. Portanto, como se vê, os nossos aborrecimentos têm uma origem dentro de nós, são sentimentos nossos.

 Primeiramente, se nos sentimos magoados, aborrecidos, irritados e frustrados sem que essa tenha sido a intenção dos outros, a culpa é da nossa sensibilidade. Estão nessa situação os sentimentos de humilhação que experimentamos quando o nosso orgulho é ofendido. Ora, estamos falando do nosso orgulho. Ou nos sentimos magoados quando achamos que não estamos sendo amados o tanto que gostaríamos de ser amados. Ora, a quantidade que gostaríamos de ser amados e apreciados é  a nossa pretensão, portanto, de nossa exclusiva responsabilidade. Ou nos sentimos frustrados porque o outro não satisfaz nossas expectativas. Ora as expectativas são construídas por nós, portanto, da nossa autoria.

Em segundo lugar, mesmo sendo de intenção dos outros magoar-nos, humilhar-nos, frustrar-nos ou irritar-mos, se estivermos muito bem connosco mesmo, jamais nos deixaremos abater por tais sentimentos. A fragilidade sentimental (afectiva) favorece a nossa vulnerabilidade às más intenções dos nossos semelhantes.

 As nossas frustrações costumam ser proporcionais às nossas pretensões. Quem deseja ser sempre obedecido incondicionalmente, com certeza terá muitas oportunidades na vida para sentir-se frustrado, assim como quem deseja ser sempre e por todos compreendidos, amado, aplaudido, respeitado, irá sentir-se frustrado. Muitas vezes magoamo-nos por sentirmos que não estamos sendo compreendidos e acarinhados o tanto que gostaríamos de ser, e sentimo-nos humilhados por não sermos prestigiados o tanto que achamos que merecemos, e assim por diante.

Uma das causas das nossas frustrações é também a sensação de falta de reciprocidade, ou seja, quando não fazem connosco ou para nós o mesmo que acreditamos ter feito (de bom) aos outros. As pessoas irritam-se ao esperar na fila porque, normalmente, não gostam de deixar ninguém esperando por elas. A realidade nua e crua, é que nós não gostamos de deixar outros esperando porque não gostamos de esperar, somos gentis no trânsito na expectativa de que sejam gentis connosco, damos esmolas porque não gostamos de nos sentir sem dinheiro, somos honestos porque esperamos honestidade dos outros... Ou seja o nosso parâmetro de bondade, caridade, compreensão, etc. é sempre nós mesmos.

Essas pretensões para que os nossos próximos façam isso ou aquilo, que procedam dessa ou daquela forma nascem e existem dentro de nós, é um parâmetro nosso. Mas, por outro lado, o nosso semelhante também tem, tal como nós, suas pretensões. Aliás, as mesmas pretensões que temos. Ora, como poderíamos pretender um equilíbrio harmónico entre duas pessoas que pretendem, simultaneamente, serem ambos admirados, amados, respeitados, obedecidos, etc. se essas pessoas não entenderem que ambos são iguais? Frustrar-se e magoar-se porque meu próximo também pretende ser admirado, gostado, respeitado e obedecido é, no mínimo, um grande contra-senso.

Para entendermos nosso semelhante basta consultarmos as nossas próprias pretensões, pulsões, inclinações e anseios (é por isso que ele se chama nosso semelhante). Portanto, tudo começa com a consciência a respeito de nós mesmos.

 

http://sites.uol.com.br/gballone/voce/proximo.html



publicado por Sou às 22:14
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