Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

1- Irritar-se e Magoar-se com Nosso Próximo

Temos que dividir essa questão em 3 tipos de próximos:
a) os muito próximos, que são aqueles com quem convivemos mais intimamente;
b) os socialmente próximos, que são as pessoas com as quais nos relacionamos, de uma forma ou outra, na vida em sociedade e;
c) os pouco próximos, que são as pessoas em geral, representantes de nossa espécie ou de nosso grupo social com os quais não temos um contacto direto.

A - Os muito próximos

Estão incluídas aqui os familiares mais próximos, como os cônjuges, filhos, pais, irmãos e amigos íntimos. Sendo esse outro uma pessoa muito próxima, alguém de quem gostamos, nossa exigência para com ele será maior, e será tão maior quanto maior for nosso apreço à ele.

Esses muito próximos normalmente nos irritam porque sentem frio ou calor demais, são desorganizados, deixam a torneira pingando ou implicam com a torneira que deixamos pingando, apertam o tubo de creme dental no meio ou se irritam quando fazemos isso, chegam tarde, não dão flores, não valorizam nosso serviço, não gostam das coisas que gostamos, não são tão responsáveis quanto nós, são muito exigentes, têm péssimo gosto musical, se preocupam com besteiras, são muito despreocupados, não retribuem tudo o que lhes fazemos, não têm sentimentos de gratidão para conosco, não nos compreendem, não gostam de nós o tanto que gostamos delas, não lembram datas importantes para nós, não odeiam as pessoas que odiamos, conseguem ficar indiferentes quando estamos irritados e assim por diante.

Exigimos dos nossos muito próximos que concordem com nossos mesmos princípios e pensamentos senão, obviamente, estão errados. Exigimos que se comportem, pensem e julguem tal como faríamos e se, porventura estiverem em desacordo com esse ser especial que somos nós, será motivo suficiente para nos irritar.

Para estarmos de bem com nossos muito próximos, até seus sentimentos devem ser iguais aos nossos: devem antipatizar-se com as pessoas das quais não gostamos, devem achar imoral aquilo que achamos, devem preferir tudo aquilo que preferimos e desprezar tudo que não gostamos, devem ser muito gratos à nós e nos gostar na medida em que achamos justo e assim por diante.

Exigimos dos muito próximos que nossos desejos não sejam apenas atendidos, mas também adivinhados, sem que tenhamos de explicar quais são esses desejos, pois, explicando e pedindo uma postura desejável não seria espontâneo, como gostaríamos que fosse. É muito importante que nosso muito próximo saiba exatamente o que nos agrada, tenha nossa mesma escala de valores e faça seus julgamentos com nossos mesmos critérios.

Há pessoas que não se dão conta dessa nossa exigência desmedida em relação ao nosso muito próximo. Consideram a mágoa e irritabilidade provocada em nós por nosso muito próximo como uma resposta emocional correta, adequada às injustiças e às questões de certo e errado. Mas, quais são esses critérios de justiça, de certo e de errado?

Ora, seria um enorme contra-senso nós, pessoas maravilhosas que somos, estarmos defendendo conscientemente o injusto e o errado. Supomos, então, que tudo aquilo que pensamos e julgamos é certo e justo. Entretanto, este certo e justo são frutos exclusivos de nosso ponto de vista e não do ponto de vista de nosso próximo.

Na realidade nos magoamos muito quando nossas expectativas em relação ao nosso muito próximo não são satisfeitas, quando ele não se comporta do jeito que comportaríamos se fôssemos ele. Nos magoamos quando ele não sente o mesmo que sentiríamos se fôssemos ele. Resumindo, nos magoamos sempre que este nosso muito próximo age, pensa e se comporta diferente de nós mesmos, diferente daquilo que desejamos, diferente daquilo que achamos certo, enfim, diferente de nós.

É sadia a idéia de não ser nosso próximo quem nos irrita mas sim, nós quem nos deixamos irritar por ele. Sempre que nosso muito próximo proceder de forma contrária àquilo que esperamos dele nos irritamos. Esse ser tão especial como nós, jamais poderá ter seus conceitos, idéias e julgamentos contrariados.

Isso nos faz voltar à questão de nossa frustração ser proporcional às nossas pretensões. Se pretendemos que nosso muito próximo seja como nós, pense igual à nós, julgue como nós e dê valor às coisas absolutamente como nós, podemos nos considerar frustrados e irritados desde já, pois, ele não é nós, ele é ele. Não adianta nos frustrarmos diante da eventual ingratidão desse nosso muito próximo para conosco, apesar de tudo o que fazemos por ele. A pretensão da gratidão e de reciprocidade nasce em nós. Também não adianta nos frustrarmos porque nosso muito próximo não antipatiza com as mesmas pessoas que nos são antipáticas ou não goste tanto das pessoas de quem gostamos; seus sentimentos são diferentes dos nossos.

Não há erro no fato de nosso muito próximo ser diferente de nós, ou seja, ele não é culpado pelo simples fato de ser uma pessoa diferente de nós. O erro é pretendermos que ele seja como nós e essa pretensão para que ele seja como nós é nossa, ou seja, a culpa por estarmos decepcionados, magoados e irritados é nossa.

Diante da irritação e mágoa proporcionadas por esse nosso muito próximo diferente de nós, podemos ter duas atitudes possíveis:
1 - Pretender uma mudança em nós mesmos de forma a aceitar nosso próximo tal como ele é e sem que isso nos magoe, nos irrite ou nos frustre ou;
2 - Pretender uma mudança em nosso muito próximo de forma a torná-lo mais parecido com aquilo que gostaríamos que fosse e, com isso, sofrermos menos.
Essas duas questões merecem uma reflexão maior. Nem uma nem outra atitude deve ser absoluta e definitiva. Devemos avaliar uma posição sensata e intermediária, analisar os custos (emocionais) e os benefícios para optar entre uma coisa e outra.

B - Os Socialmente próximos

Socialmente próximos são aqueles com os quais convivemos em sociedade mas não temos uma convivência mais íntima. São pessoas com as quais convivemos nas filas, no trânsito, no trabalho, nas aglomerações, nos estádios, nas igrejas, na rua, na festa, enfim, pessoas que fazem parte da sociedade na qual vivemos.

A tensão e o stress são manifestações emocionais possíveis e importantes que resultam de nossa desarmonia com esses nossos socialmente próximos. Depois de um dia cheio, de uma semana agitada, enfim, depois de algum tempo vivendo a agitação da vida moderna, o esforço que fazemos em conviver com esses nossos semelhantes acaba resultando em tensões emocionais importantes.

Nesta questão é fundamental nos adaptarmos à vida em sociedade. Muito embora as situações da vida moderna dos grandes centros despertem em nós um certo inconformismo, devemos nos manter sempre adaptados à nossa realidade. Caso essa adaptação não seja satisfatória corremos o risco de adoecer, tanto emocionalmente quanto fisicamente.

Saber a diferença entre o conformismo e adaptação é muito importante para adotar uma atitude sadia. Aceitar com indiferença a situação presente, sem nenhuma energia para procurar mudanças é estar conformado. Isso não é sadio e não contribui para melhorar nossa vida e nossa personalidade. Reclamar, protestar, achar que não está bom e procurar novas atitudes deve fazer parte de um inconformismo sadio e desejável de cada um.

Por outro lado, adoecer e passar mal devido às circunstâncias adversas atuais é, não apenas estar inconformado mas, também, estar desadaptado. Diante do trânsito congestionado, de uma fila grande e demorada, das dificuldades do cotidiano devemos estar sempre inconformados e, por causa disso, procurar mudar alguma coisa no sentido de nosso amanhã ser melhor que hoje. No entanto, ficar hipertenso, taquicárdico, com palpitações, com ansiedade exagerada, pânico, etc., devido à essas dificuldades é estar desadaptado.

A adaptação ao nosso socialmente próximo depende da nossa consciência sobre a natureza de nossos semelhantes, consciência esta baseada sempre na consciência que temos de nós mesmos. É muito comum reprovarmos nos outros atitudes que não temos necessidade, coragem ou não nos permitimos tomar. Algumas dessas atitudes que reprovamos nos outros resultam de inclinações e pulsões que nós também temos mas, por uma questão ou outra, não nos permitimos realizar.

Ambição, desejo de vantagem, desejo de ser gostado, respeitado, ouvido, prestigiado, retribuído, agradecido, etc., são pretensões que não existem apenas em nossos semelhantes. Elas estão muito presentes em nosso próprio ser. A única diferença é que, em nós, essas aspirações naturais se manifestam de maneira diferente.

Ora, se eu tenho que chegar ao balcão do açougueiro mantendo-me pacientemente na fila, irrita-me constatar que alguém lá chegou passando na frente. Esse alguém tem o mesmo desejo que nós de ser atendido logo e seus métodos ousados produzem irritação em nós, incapazes que somos de agir igual . É nossa expectativa de reciprocidade não atendida a causa do sentimento. Diz um ditado que o condenado se consola na dor do semelhante.

Se acreditamos que somos rápidos no caixa do banco, irrita-nos a demora do cliente à nossa frente. Ele tem a tranqüilidade de tratar de seus assuntos sem se preocupar com os demais, coisa que não nos permitimos. Estar inconformado com situações assim é natural e normal. Esse inconformismo faz protestar, reclamar, procurar outros horários, enfim, tentar mudar alguma coisa. Estar desadaptado à essas situações significa, além do inconformismo, também ficar extremamente angustiado, com dor de estômago, pressão alta, deprimido, etc.

Quando nossos semelhantes conquistam os mesmos objetivos que gostaríamos de conquistar utilizando métodos diferentes dos nossos, temos tendência a nos desagradar. Causa constrangimento saber que nosso semelhante chegou onde queremos chegar usando algum atalho que não soubemos ou não nos permitimos usar. Irrita saber que ele fez o mesmo que fizemos ou mais, gastando menos, com menos esforço, com mais sucesso...

Para justificar nossas mágoas, irritabilidade ou frustrações com nosso socialmente próximo costumamos alegar questões de justiça, do certo e do errado. Voltamos a enfatizar a grande diferença que há entre as pessoas sobre esses conceitos de justiça, de certo e de errado.

Motoristas, por exemplo, que estacionam em fila dupla para apanhar o filho na saída da escola ou atravessam o sinal fechado, justificam essas atitudes à si próprios com motivos e alegações plausíveis, muito embora sejam contravenções às leis do trânsito. Podem haver razões pessoais para se acharem certos, entretanto, as pessoas que não necessitam recorrer à essas atitudes ou conseguem outras alternativas se irritam com isso.

Não faltam justificativas pessoais para aqueles que furam fila, que jogam lixo em locais indevidos, que não dão esmolas ou que dão, aqueles que trafegam muito lentos ou muito rápidos, enfim, as circunstâncias de cada um determinam atitudes amplamente justificáveis para si mesmos.

Alguns chavões sócio-culturais que ninguém ousa contestar podem ser usados para justificar muitas atitudes, como por exemplo, a segurança pessoal, a segurança dos familiares, a estabilidade econômica, as urgências cotidianas que obrigam tomar esta ou aquela atitude, a carência, fome, desemprego, etc. Enfim, na cabeça de nosso socialmente próximo sempre há uma justificativa pessoal para que ele proceda dessa ou daquela forma mas, para nós, que não vivemos sua realidade, essas justificativas não são válidas e acabam nos irritando.

Para melhorar a convivência com nossos socialmente próximos precisamos melhorar nossa adaptação. Como dissemos, é permitido e até desejável estarmos inconformados com alguns desses nossos semelhantes, inconformados com o fato de termos de engolir alguns desses nossos socialmente próximos com seus métodos estranhos de se portarem. O inconformismo é importante para nos empenharmos em mudanças e novas atitudes numa tentativa de melhorar nosso amanhã. Entretanto, a compreensão, complacência e tolerância são as armas com as quais lutaremos para nos adaptar e nos manter sadios.

Um dos argumentos possíveis para que tenhamos a compreensão, a complacência e a tolerância necessárias à adaptação é a valorização consciente de nossa saúde e bem estar. Considerando que a saúde e o bem estar são nosso patrimônio mais valioso, colocá-lo à mercê de terceiros é um risco muito grande. Permitir que pessoas outras, nem tão íntimas, nem tão queridas, possam comprometer nosso maior patrimônio e, indiretamente, comprometer o bem estar de nossos familiares é muito insensato.

Ao permitirmos que as querelas do cotidiano, que atitudes corriqueiras ou pouco importantes de nossos socialmente próximos nos magoe, aborreça ou irrite, estaremos colocando nosso bem estar, nossa felicidade e até nossa saúde nas mãos de pessoas desconhecidas, de pessoas que não se importarão nem um pouco com nossa pessoa e, muito menos com nosso estado.
De fato, para nos mantermos imunes às influências danosas que aqueles socialmente próximos são capazes de exercer sobre nós, devemos alimentar um estado de espírito (humor ou estado afetivo) elevado o suficiente para não nos sensibilizarmos com suas atitudes.

É bom lembrar sempre que nosso coração é muito importante para fazê-lo sofrer por alguém que nem conhecemos muito bem ou nos é totalmente estranho. O mesmo se aplica à nossa pressão arterial, ao nosso estômago, enfim, todo nosso ser é demasiadamente importante para nos submetermos à estranhos. É bom lembrar sempre que nossa imunidade depende exclusivamente de nós mesmos e não de nossos socialmente próximos. Somos nós quem nos concedemos ou não essa imunidade.


 


Ballone GJ - A Convivência com o Próximo - in. PsiqWeb, Internet, disponível em

 

http://sites.uol.com.br/gballone/voce/proximo.html



publicado por Sou às 21:25
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