Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

Somos uma multidão de iguais
Semelhantes em sonhos e ilusões
Direcções diversas na conquista
Dos ideais, universais
Não se escreve o nome de um homem
Em tudo o que ele faz
Mas onde ele põe suas mãos
Estão as digitais.

Não importa qual a cor do homem
Como ele se veste, de onde vem
de dentro de um castelo ou de um barraco
Ele é alguém com o que tem.

É guerreiro nessa disputa
E onde ele estiver
O respeito pela sua luta
É tudo o que ele quer.

Debaixo desse céu
Sob a luz do mesmo sol
Todo mundo é alguém.

Quem é quem? 
Quem é quem?
Nesse mundo todo mundo é alguém.

Da semente ao trigo quantos são 
Pra fazer chegar à mesa o pão?
Do barro até o topo de um arranha-céus

Quantos estão nessa missão?

Todo o ser humano é importante
Naquilo que ele faz
Às vezes por caminhos distantes
Mas todos são iguais

Por isso
Quem é quem
Se aos olhos de Deus
Todo mundo é alguém?

Quem é quem? Quem é quem?

Nesse mundo todo o mundo é alguém! 

adaptação de composição: Roberto Carlos

 



publicado por Sou às 16:45
Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

 

Fotografia de: Eddie Adams

 

Sei que ninguém vai me tirar, a alegria de viver.
Pode tudo acontecer,
Nada me fará afastar da esperança.

Por tantas provas já passei,
Quantas lágrimas chorei,
Por um mundo que não sei compreender.
Com meus olhos de criança.

Mas hoje eu sei, que só através do amor,
O homem pode se encontrar,
Com a perfeição dos sábios.
Uma ambição maior, mais do que pode supor.
O império da razão.

Toda vã filosofia.

Por isso insisto em cultivar,
Os meus sonhos, a minha fé.
Esteja onde eu estiver, creio em você.
Eu estou em segurança.

adaptação de: letra de música de Roberto Carlos



publicado por Sou às 16:41
Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007


publicado por Sou às 22:57
Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

A ALEGRIA DE VIVER

Já alguma vez refletiste porque muitas pessoas, ao se tornarem mais velhas, parecem perder toda a alegria de viver? No momento, a maioria de vós, que sois jovens, é relativamente feliz; tendes os vossos pequenos problemas, as vossas preocupações sobre os exames, mas, apesar dessas perturbações, há, em vossa vida, uma verdade? Há uma espontânea e natural aceitação da vida, uma visão das coisas despreocupada e feliz.

Mas, por que razão, ao nos tornarmos mais velhos, parecemos perder aquele ditoso pressentimento de algo transcendental, algo de mais significativo? Por que tantos de nós, ao alcançarmos a chamada maturidade, nos tornamos embotados, insensíveis à alegria, à beleza, ao céu sereno e às maravilhas da terra?

 

Quando urna pessoa faz a si própria esta pergunta, muitas explicações acodem-lhe ao espírito. Temos muito interesse em nós próprios . Lutamos para nos tornarmos alguém, para alcançarmos e conservarmos uma certa posição; temos filhos e outras responsabilidades, e termos de ganhar dinheiro. Todas essas coisas que se agitam no nosso interior não tardam a deprimir-nos, e perdemos assim a alegria de viver. Vede os rostos dos mais velhos, do vosso círculo de conhecimentos, tão tristes que são, na sua  maioria,  gastos, adoentados, reservados, alheados, não raro neuróticos, sem um sorriso. Não perguntais a vós mesmos por que são assim?

 

 

E mesmo quando indagamos o porquê disso, a maioria de nós parece satisfazer-se com meras explicações.

 

 

 

Ontem de tarde vi um barco que subia o rio, de velas pandas, impelido pelo vento oeste. Era um barco grande e transportava pesada carga de lenha destinada à cidade. O sol  punha-se e a embarcação, desenhada contra o céu, mostrava uma singular beleza. O barqueiro só tinha de guiá-la; nenhum esforço era necessário, pois o vento fazia todo o trabalho. Analogamente, se cada um de nós compreendesse o problema da luta e do conflito, penso que poderíamos viver sem esforço, felizes, de rosto sorridente.

Para mim, é o esforço que nos destrói, esse lutar em que despendemos quase todos os momentos de nossa vida, Se observardes, ao redor de vós, as pessoas mais velhas, podereis ver que para quase todos a vida é uma série de batalhas consigo mesmos, com as suas mulheres ou maridos, com seu próximo, com a sociedade; e essa luta incessante dissipa energia.

 

O ser humano que vive alegre, verdadeiramente feliz, está livre de todo esforço. Viver sem esforço não significa tornar-se estagnado, embotado, estúpido; ao contrário, só os homens sensatos, altamente inteligentes, estão verdadeiramente livres do esforço e da luta.

 

Mas, quando ouvimos falar em viver sem esforço, queremos viver assim, desejamos alcançar um estado em que não haja luta nem conflito; tornamo-lo, pois, esse estado, nosso alvo, nosso ideal, e por ele lutamos; e desde esse momento perdemos a alegria de viver.

 

Estamos de novo empenhados em esforço, luta. O objecto da luta varia, mas toda a luta é essencialmente a mesma. Um luta pela promoção de reformas sociais, ou para achar Deus, ou para criar melhores relações no lar ou com o próximo; outro senta-se à margem do Ganges ou  prostra-se devotamente aos pés de um guru - etc. etc. Tudo isso representa esforço, luta. O importante, por conseguinte, não é o objecto da luta, porém, sim, compreender a própria luta.

 

Ora, é possível a mente não apenas perceber ocasionalmente que não está a lutar, porém estar a todas as horas completamente livre de esforço, de modo que possa descobrir um estado de alegria em que não haja nenhuma idéia de superioridade e inferioridade?

 

O caso é que a mente se sente inferior e por esta razão luta para "vir a ser" alguma coisa, ou conciliar seus vários desejos contraditórios. Mas, não estejamos a dar explicações sobre por que a mente tanto luta. Todo homem que pensa sabe por que há luta, interior e exteriormente. 

 

A nossa inveja, avidez, ambição, o nosso espírito de competição, que nos impele à mais impiedosa eficiência - são obviamente estes os factores que nos fazem lutar, no mundo actual ou no mundo do futuro. Para tanto, não temos necessidade de estudar livros de psicologia para sabermos por que lutamos; e o que certamente, tem importância é que descubramos se a mente pode ficar totalmente livre de luta.

 

Afinal de contas, quando lutamos, o conflito é entre o que somos e o que deveríamos ou desejamos ser.

 

Pois bem; sem se procurarem explicações, pode-se compreender todo esse processo de luta, de modo que ele termine?

Como aquele barco levado pelo vento, pode a mente existir sem luta?

 

A questão é esta, sem dúvida, é não como alcançar um estado em que não haja luta. O próprio esforço para alcançar tal estado é, em si, um processo de luta e, por conseguinte, aquele estado nunca pode ser alcançado. Mas, se observardes, momento por momento, como a mente se deixa colher nesse torvelinho de incessante luta - se observardes simplesmente o facto, sem tentar alterá-lo, sem impor à mente um certo estado que chamais "de paz" - vereis que, espontaneamente, a mente deixará de lutar; e nesse estado ela é capaz de aprender infinitamente.

 

Aprender já não é, então, mero processo de acumular conhecimentos, porém de descobertas, de extraordinárias riquezas existentes além do alcance da mente; e para a mente que faz tal descobrimento, há grande alegria.

 

Observai a vós mesmo, para verdes como lutais da manhã à noite, e como vossa energia se dissipa nessa luta. Se tratardes apenas de explicar por que lutais, ficareis perdido numa floresta de explicações e a luta prosseguirá;

 

mas se, ao contrário, observardes vossa mente, com serenidade e sem dardes explicações; se deixardes simplesmente que vossa mente esteja cônscia de sua própria luta, vereis que muito depressa surgirá um estado no qual nenhuma luta haverá, um estado de extraordinária vigilância.

 

Nessa vigilância, não há idéia de "superior" e "inferior", não há homem importante nem homem insignificante, não há guru. Todos esses absurdos desapareceram, por que a mente está inteiramente desperta; e a mente de todo desperta está cheia de alegria...

 

...Afinal de contas, que é "contentamento" e o que é "descontentamento"? "Descontentamento" é a luta pela consecução de mais, e o "contentamento" a cessação dessa luta; mas, não se chega ao contentamento, se se não compreende todo o "processo" relativo ao mais, e por que razão a mente o exige.

 

 

Se sois mal sucedido num exame, por exemplo, tereis de repeti-lo, não é verdade? Os exames, em qualquer circunstância, são uma coisa sumamente deplorável, porquanto nada representam de significativo, já que não revelaria o verdadeiro valor de vossa inteligência. Passar num exame é, em grande parte, um "golpe" de memória ou, também, de sorte; mas, vós lutais para passardes em vossos exames e, quando sois mal sucedidos, perseverais nessa luta. O mesmo "processo" se verifica diariamente, na vida da maioria de nós.

 

Estamos lutando por alguma coisa e nunca nos detivemos para investigar se essa coisa é digna de lutarmos por ela.

 

Nunca perguntamos a nós mesmos se ela merece nossos esforços e, portanto, ainda não descobrimos que não os merece e que devemos contrariar a opinião de nossos pais, da sociedade, de todos os mestres e gurus.

 

É só quando temos compreendido inteiramente o significado do mais, que deixamos de pensar em termos de fracasso e de êxito.

 

Temos sempre medo de falhar, de cometer erros, não só nos exames, mas também na vida. Cometer um erro é coisa terrível, porque seremos criticados, censurados, por causa dele. Mas, afinal, por que não se devem cometer erros? Toda gente, neste mundo, não vive cometendo erros? E o mundo sairia da horrível confusão em que se encontra, se vós e eu nunca cometêssemos um erro?

 

Se tendes medo de cometer erros, nunca aprendereis coisa alguma. Os mais velhos estão continuamente cometendo erros, mas não querem que vós os cometais e, com isso vos sufocam toda a iniciativa. Por quê?

 

Porque temem que, pelo observar e investigar todas as coisas, pelo experimentar e errar, acabeis descobrindo algo por vós mesmo e trateis de emancipar-vos da autoridade de vossos pais, da sociedade, da tradição.

 

É por essa razão que vos acenam com o ideal do êxito; e o êxito, como deveis ter notado, sempre se traduz em termos de respeitabilidade. O próprio santo, em seus progressos para a chamada perfeição espiritual, tem de tornar-se respeitável, porque, do contrário, não encontrará "aceitação", não terá seguidores.

 

Estamos, pois, sempre pensando em termos de êxito, em termos de mais; e o mais é encarecido pela sociedade respeitável. Por outras palavras, a sociedade estabeleceu, com todo o esmero, um certo padrão, pelo qual mede o vosso sucesso ou o vosso insucesso.

 

Mas, se amais uma coisa e a fazeis com todo o vosso ser, então já não vos importa o êxito nem o fracasso. Nenhum homem inteligente se importa com isso. Mas, infelizmente, são raros os homens inteligentes, e ninguém vos aponta essas coisas. Tudo o que importa ao homem inteligente é perceber os factos e compreender o problema - e isso não significa pensar em termos de êxito ou de fracasso. Só quando não amamos o que fazemos, pensamos nesses termos.

Krishnamurti

http://www.cuidardoser.com.br/coletanea-krishnamurti.htm



publicado por Sou às 22:36
Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007

Eu sou nuvem passageira,
Que com o vento se vai,
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai.

Não adianta escrever meu nome n’uma pedra,
Pois essa pedra em pó vai se transformar,
Você não vê que a vida corre contra o tempo
Sou um castelo de areia na beira do mar.

(Ar, Ar)

Eu sou nuvem passageira,
Que com o vento se vai,
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai.

A lua cheia convida para um longo beijo
Mas o relógio te cobra o dia de amanhã
Estou sozinho, perdido e louco no meu leito,
E a namorada analisada por sobre o divã.

(Ar, Ar, Ar) (Ar, Ar,Ar)

Por isso agora o que eu quero é dançar na chuva
Não quero nem saber de me fazer ou me matar
Eu vou deixar um dia a minha energia
Sou um castelo de areia na beira do mar

Eu sou nuvem passageira,
Que com o vento se vai,
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai.

Eu sou nuvem passageira,
Que com o vento se vai,
Eu sou como um cristal bonito
Que se quebra quando cai.

Que se quebra quando cai (3x)
 



publicado por Sou às 19:09
Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007


publicado por Sou às 21:23
Domingo, 21 de Outubro de 2007

Não me mostres o teu lado feliz
A luz do teu rosto quando sorris
Faz-me crer que tudo em ti é risonho
Como se viesses do fundo de um sonho

Não me abras assim o teu mundo
O teu lado solar só dura um segundo
Não é por ele que te quero amar
Embora seja ele que me esteja a enganar

Toda a alma tem uma face negra
Nem eu nem tu fugimos à regra
Tiremos à expressão todo o dramatismo
Por ser para ti eu uso um eufemismo
Chamemos-lhe apenas o lado lunar
Mostra-me o teu lado lunar



publicado por Sou às 20:42
Domingo, 21 de Outubro de 2007

Eu vejo o verde das árvores, rosas vermelhas também
Eu vejo florescer para nós dois
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

Eu vejo o azul dos céus e o branco das nuvens
O brilho do dia abençoado, a sagrada noite escura
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso

As cores do arco-íris, tão bonitas nos céus
E estão também nos rostos das pessoas que passam
Vejo amigos apertando as mãos, dizendo: "como está(s)?"
Eles realmente dizem: "eu gosto de ti!"
Eu ouço bebés chorando, eu vejo-os crescer
Eles aprenderão muito mais que eu jamais saberei
E eu penso comigo... que mundo maravilhoso
Sim, eu penso comigo... que mundo maravilhoso

 

Louis Armstrong (tradução em português)



publicado por Sou às 08:49
Domingo, 21 de Outubro de 2007

Un recado de parte de la tele
ya va siendo hora
de que los peques
nos vayamos a la cama
¡¡ ale !!

Vamos a la cama
que hay que descansar
para que mañana
podamos madrugar

Vamos a la cama
que hay que descansar
para que mañana
podamos madrugar.



publicado por Sou às 00:42
Sábado, 20 de Outubro de 2007
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda-moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração

A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a roseira pra lá
Roda mundo ...

A roda da saia, a mulata
Não quer mais rodar, não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou
A gente toma a iniciativa
Viola na rua, a cantar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a viola pra lá
Roda mundo...

O samba, a viola, a roseira
Um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda-viva
E carrega a saudade pra lá
Roda mundo ...


 

Chico Buarque



publicado por Sou às 23:33
Sábado, 20 de Outubro de 2007

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem( bis)
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

Edu Lobo e Chico Buarque



publicado por Sou às 22:26
Sábado, 20 de Outubro de 2007

O primeiro ponto a ser compreendido é o ego.

Uma criança nasce sem qualquer conhecimento, sem qualquer consciência de seu próprio eu. E quando uma criança nasce, a primeira coisa da qual ela se torna consciente não é ela mesma; a primeira coisa da qual ela se torna consciente é o outro. Isso é natural, porque os olhos se abrem para fora, as mãos tocam os outros, os ouvidos escutam os outros, a língua saboreia a comida e o nariz cheira o exterior. Todos esses sentidos abrem-se para fora. O nascimento é isso.

Nascimento significa vir a este mundo, o mundo exterior. Assim, quando uma criança nasce, ela nasce neste mundo. Ela abre seus olhos, vê aos outros. O "outro" significa o tu. Ela primeiro se torna consciente da mãe. Então, pouco a pouco, ela se torna consciente de seu próprio corpo. Este também é o outro, também pertence ao mundo. Ela está com fome e passa a sentir o corpo; quando sua necessidade é satisfeita, ela esquece o corpo.

É desta maneira que a criança cresce.

Primeiro ela se torna consciente do você, do tu, do outro, e então, pouco a pouco, contrastando com você, tu, ela se torna consciente de si mesma.

Essa consciência é uma consciência refletida. Ela não está consciente de quem ela é. Ela está simplesmente consciente da mãe e do que esta pensa a seu respeito.

Se a mãe sorri, se ela aprecia a criança, se diz: "Você é bonita", se ela a abraça e a beija, a criança sente-se bem a respeito de si mesma. Agora um ego está nascendo. Através da apreciação, do amor, do cuidado, ela sente que é boa, ela sente que tem valor, ela sente que tem importância. Um centro está nascendo. Mas esse centro é um centro refletido. Ela não é o ser verdadeiro. A criança não sabe quem ela é; ela simplesmente sabe o que os outros pensam a seu respeito.

E esse é o ego: o reflexo, aquilo que os outros pensam. Se ninguém pensa que ela tem alguma utilidade, se ninguém a aprecia, se ninguém lhe sorri, então, também, um ego nasce - um ego doente, triste, rejeitado, como uma ferida; sentindo-se inferior, sem valor. Isso também é o ego. Isso também é um reflexo.

Primeiro a mãe - e mãe, no início, significa o mundo. Depois os outros se juntarão à mãe, e o mundo irá crescendo. E quanto mais o mundo cresce, mais complexo o ego se torna, porque muitas opiniões dos outros são refletidas.

O ego é um fenômeno acumulativo, um subproduto do viver com os outros. Se uma criança vive totalmente sozinha, ela nunca chegará a desenvolver um ego. Mas isso não vai ajudar. Ela permanecerá como um animal. Isso não significa que ela virá a conhecer o seu verdadeiro eu, não. O verdadeiro pode ser conhecido somente através do falso, portanto, o ego é uma necessidade. Temos que passar por ele. Ela é uma disciplina.

O verdadeiro pode ser conhecido somente através da ilusão. Você não pode conhecer a verdade diretamente. Primeiro você tem que conhecer aquilo que não é verdadeiro. Primeiro você tem que encontrar o falso. Através desse encontro, você se torna capaz de conhecer a verdade. Se você conhece o falso como falso, a verdade nascerá em você.

O ego é uma necessidade; é uma necessidade social, é um subproduto social. A sociedade significa tudo o que está ao seu redor, não você, mas tudo aquilo que o rodeia. Tudo, menos você, é a sociedade. E todos refletem. Você irá para a escola e o professor refletirá quem você é. Você fará amizade com outras crianças e elas refletirão quem você é. Pouco a pouco, todos estão adicionando algo ao seu ego, e todos estão tentando modificá-lo, de tal forma que você não se torne um problema para a sociedade.

Eles não estão interessados em você. Eles estão interessados na sociedade.
A sociedade está interessada nela mesma, e é assim que deveria ser. Ela não está interessada no fato de que você deveria se tornar um conhecedor de si mesmo. Interessa-lhe que você se torne uma peça eficiente no mecanismo da sociedade. Você deveria ajustar-se ao padrão. Assim, estão tentando dar-lhe um ego que se ajuste à sociedade. Ensinam-lhe a moralidade. Moralidade significa dar-lhe um ego que se ajustará à sociedade. Se você for imoral, você será sempre um desajustado em um lugar ou outro.

É por isso que colocamos os criminosos nas prisões, não que eles tenham feito alguma coisa errada, não que ao colocá-los nas prisões iremos melhorá-los, não. Eles simplesmente não se ajustam. Eles criam problemas. Eles têm certos tipos de egos que a sociedade não aprova. Se a sociedade aprova, tudo está bem.

Um homem mata alguém - ele é um assassino. E o mesmo homem, durante a guerra, mata milhares - e torna-se um grande herói. A sociedade não está preocupada com o homicídio, mas o homicídio deveria ser praticado para a sociedade - então tudo está bem. A sociedade não se preocupa com moralidade.

Moralidade significa simplesmente que você deve se ajustar à sociedade.

Se a sociedade estiver em guerra, a moralidade muda. Se a sociedade estiver em paz, existe uma moralidade diferente. A moralidade é uma política social. É diplomacia.

E toda criança deve ser educada de tal forma que ela se ajuste à sociedade; e isso é tudo, porque a sociedade está interessada em membros eficientes. A sociedade não está interessada no fato de que você deveria chegar ao autoconhecimento. A sociedade cria um ego porque o ego pode ser controlado e manipulado. O eu nunca pode ser controlado e manipulado. Nunca se ouviu dizer que a sociedade estivesse controlando o eu - não é possível. E a criança necessita de um centro; a criança está absolutamente inconsciente de seu próprio centro. A sociedade lhe dá um centro e a criança pouco a pouco fica convencida de que este é o seu centro, o ego dado pela sociedade.

Uma criança volta para casa - se ela foi o primeiro aluno de sua classe, a família inteira fica feliz. Você a abraça e a beija, e você coloca a criança no colo e começa a dançar e diz: "Que linda criança! Você é um motivo de orgulho para nós." Você está dando um ego a ela. Um ego subtil.

 

E se a criança chega em casa abatida, fracassada, um fiasco - ela não pode passar, ou ela tirou o último lugar - então ninguém a aprecia e a criança sente-se rejeitada. Ela tentará com mais afinco na próxima vez, porque o centro se sente abalado. O ego está sempre abalado, sempre à procura de alimento, de alguém que o aprecie. É por isso que você está continuamente pedindo atenção.

 

Você obtém dos outros a idéia de quem você é. Não é uma experiência direta. É dos outros que você obtém a idéia de quem você é. Eles modelam o seu centro.

Esse centro é falso, porque você contém o seu centro verdadeiro. Este não é da conta de ninguém. Ninguém o modela, você vem com ele. Você nasce com ele. Assim, você tem dois centros. Um centro com o qual você vem, que lhe é dado pela própria existência. Este é o eu.

 

E o outro centro, que lhe é dado pela sociedade - o ego. Ele é algo falso - e é um grande truque. Através do ego a sociedade está controlando você. Você tem que se comportar de uma certa maneira, porque somente então a sociedade o aprecia. Você tem que caminhar de uma certa maneira: você tem que rir de uma certa maneira; você tem que seguir determinadas condutas, uma moralidade, um código. Somente então a sociedade o apreciará, e se ela não o fizer, o seu ego ficará abalado. E quando o ego fica abalado, você já não sabe onde está, quem você é. Os outros lhe deram a idéia.

Essa idéia é o ego.

Tente entendê-lo o mais profundamente possível, porque ele tem que ser jogado fora. E a menos que você o jogue fora, nunca será capaz de alcançar o eu. Por estar viciado no centro, você não pode se mover, e você não pode olhar para o eu. E lembre-se, vai haver um período intermediário, um intervalo, quando o ego estará despedaçado, quando você não saberá quem você é, quando você não saberá para onde está indo, quando todos os limites se dissolverão. Você estará simplesmente confuso, um caos.

Devido a esse caos, você tem medo de perder o ego. Mas tem que ser assim. Temos que passar através do caos antes de atingir o centro verdadeiro. E se você for ousado, o período será curto. Se você for medroso e novamente cair no ego, e novamente começar a ajeitá-lo, então, o período pode ser muito, muito longo; muitas vidas podem ser desperdiçadas.

Ouvi dizer:
Uma criancinha estava visitando seus avós. Ela tinha apenas quatro anos de idade. De noite, quando a avó a estava fazendo dormir, ela de repente começou a chorar e a gritar:
"Eu quero ir para casa. Estou com medo do escuro."
Mas a avó disse:
"Eu sei muito bem que em sua casa você também dorme no escuro; eu nunca vi a luz acesa: Então por que você está com medo aqui?"
O menino disse:
"Sim, é verdade - mas aquela é a minha escuridão. Esta escuridão é completamente desconhecida."

Até mesmo com a escuridão você sente: "Esta é minha."

Do lado de fora - uma escuridão desconhecida. Com o ego você sente: "Esta é a minha escuridão." Pode ser problemática, pode criar muitos tormentos, mas ainda assim, é minha. Alguma coisa em que se segurar, alguma coisa em que se agarrar, alguma coisa sob os pés; você não está em um vácuo, não está em um vazio. Você pode ser infeliz, mas pelo menos você é.

Até mesmo o ser infeliz lhe dá uma sensação de "eu sou". Afastando-se disso, o medo toma conta; você começa a sentir medo da escuridão desconhecida e do caos - porque a sociedade conseguiu clarear uma pequena parte do seu ser... É o mesmo que penetrar em uma floresta. Você faz uma pequena clareira, você limpa um pedaço de terra, você faz um cercado, você faz uma pequena cabana; você faz um pequeno jardim, um gramado, e você sente-se bem. Além de sua cerca - a floresta, a selva. Aqui tudo está bem; você planejou tudo. Foi assim que aconteceu.

A sociedade abriu uma pequena clareira em sua consciência. Ela limpou apenas uma pequena parte completamente e cercou-a. Tudo está bem ali. Todas as suas universidades estão fazendo isso. Toda a cultura e todo o condicionamento visam apenas limpar uma parte, para que você possa se sentir em casa ali.

E então você passa a sentir medo. Além da cerca existe perigo. Além da cerca você é, tal como dentro da cerca você é - e sua mente consciente é apenas uma parte, um décimo de todo o seu ser. Nove décimos estão aguardando no escuro. E dentro desses nove décimos, em algum lugar, o seu centro verdadeiro está oculto.

Precisamos ser ousados, corajosos. Precisamos dar um passo para o desconhecido.

Por um certo tempo, todos os limites ficarão perdidos.

Por um certo tempo, você vai sentir-se atordoado.

Por um certo tempo, você vai sentir-se muito amedrontado e abalado, como se tivesse havido um terremoto.

Mas se você for corajoso e não voltar para trás, se você não voltar a cair no ego, mas for sempre em frente, existe um centro oculto dentro de você, um centro que você tem carregado por muitas vidas.

Esta é a sua alma, o eu.

 

Uma vez que você se aproxime dele, tudo muda, tudo volta a se assentar novamente. Mas agora esse assentamento não é feito pela sociedade. Agora, tudo se torna um cosmos e não um caos; nasce uma nova ordem. Mas esta não é a ordem da sociedade - é a própria ordem da existência.

 

Então, de repente tudo volta a ficar belo, e pela primeira vez, realmente belo, porque as coisas feitas pelo homem não podem ser belas. No máximo você pode esconder a feiúra delas, isso é tudo. Você pode enfeitá-las, mas elas nunca podem ser belas. A diferença é a mesma que existe entre uma flor verdadeira e uma flor de plástico ou de papel. O ego é uma flor de plástico, morta. Não é uma flor, apenas parece com uma flor. Até mesmo lingüisticamente, chamá-la de flor está errado, porque uma flor é algo que floresce. E essa coisa de plástico é apenas uma coisa e não um florescer. Ela está morta. Não há vida nela. Você tem um centro que floresce dentro de você.

Os hindus  chamam de lótus - é um florescer. Chamam-no de lótus das mil pétalas. Mil significa infinitas pétalas. O centro floresce continuamente, nunca para, nunca morre. Mas se você está satisfeito com um ego de plástico... Existem algumas razões para que  esteja satisfeito. Com uma coisa morta, existem muitas vantagens. Uma é que a coisa morta nunca morre. Não pode - nunca esteve viva. Assim você pode ter flores de plástico, e de certa forma elas são boas. Elas são permanentes; não são eternas, mas são permanentes. A flor verdadeira, a flor que está lá fora no jardim, é eterna, mas não é permanente. E o eterno tem uma maneira própria de ser eterno. A maneira do eterno é nascer muitas e muitas vezes... e morrer. Através da morte, o eterno se renova, rejuvenesce.

Para nós, parece que a flor morreu - ela nunca morre. Ela simplesmente troca de corpo, assim está sempre fresca. Ela deixa o velho corpo e entra em um novo corpo. Ela floresce em algum outro lugar, nunca deixa de estar florescendo.

Mas não podemos ver a continuidade porque a continuidade é invisível. Vemos somente uma flor, outra flor; nunca vemos a continuidade. Trata-se da mesma flor que floresceu ontem. Trata-se do mesmo sol, mas em um traje diferente.

O ego tem uma certa qualidade - ele está morto. É de plástico. E é muito fácil obtê-lo, porque são os outros que o dão a você. Você não o precisa procurar; a busca não é necessária para ele. Por isso, a menos que você se torne um buscador à procura do desconhecido, você ainda não terá se tornado um indivíduo. Você é simplesmente uma parte da multidão. Você é apenas uma turba. Quando você não tem um centro autêntico, como você pode ser um indivíduo? O ego não é individual. O ego é um fenómeno social - ele é a sociedade, não é você. Mas ele lhe dá um papel na sociedade, uma posição na sociedade. E se você ficar satisfeito com ele, você perderá toda a oportunidade de encontrar o eu.

E por isso você é tão infeliz.

Com uma vida de plástico, como você pode ser feliz? Com uma vida falsa, como você pode ser extático e bem-aventurado? E esse ego cria muitos tormentos, milhões deles. Você não pode ver, porque se trata da sua escuridão. Você está em harmonia com ela. Você nunca reparou que todos os tipos de tormentos acontecem através do ego? Ele não o pode tornar abençoado; ele pode somente torná-lo infeliz.

O ego é o inferno.

Sempre que você estiver sofrendo, tente simplesmente observar e analisar, e você descobrirá que, em algum lugar, o ego é a causa do sofrimento. E o ego continua encontrando motivos para sofrer.

Uma vez  estava hospedado na casa de Mulla Nasrudin. A esposa estava dizendo coisas muito desagradáveis a respeito de Mulla Nasrudin, com muita raiva, aspereza, agressividade, muito violenta, a ponto de explodir. E Mulla Nasrudin estava apenas sentado em silêncio, ouvindo. Então, de repente, ela se voltou para ele e disse: "Então, mais uma vez você está discutindo comigo!" Mulla disse: "Mas eu não disse uma única palavra!"

A esposa replicou: "Sei disso - mas você está ouvindo muito agressivamente." Você é um egoísta, como todos são. Alguns são muito grosseiros, evidentes, e estes não são tão difíceis. Outros são muito subtis, profundos, e estes são os verdadeiros problemas.

O ego entra em conflito com outros continuamente porque cada ego está extremamente inseguro de si mesmo. Tem que estar - ele é uma coisa falsa, ele procura a toda a hora reconhecimento no outro. Quando você nada tem nas mãos, mas acredita ter algo, então haverá um problema. Se alguém disser: "Não há nada", imediatamente começa a briga porque você também sente que não há nada. O outro o torna consciente desse fato. O ego é falso, ele não é nada.

E você também sabe isso.

Como você pode deixar de saber isso? É impossível! Um ser consciente - como pode ele deixar de saber que o ego é simplesmente falso? E então os outros dizem que não existe nada - e sempre que os outros dizem que não existe nada, eles batem numa ferida, eles dizem uma verdade - e nada fere tanto quanto a verdade. Você tem que se defender, porque se você não se defende, se não se torna defensivo, onde estará você?

Você estará perdido. A identidade estará rompida.

Assim, você tem que se defender e lutar - este é o conflito. Um homem que alcança o eu nunca se encontra em conflito algum. Outros podem vir e entrar em choque com ele, mas ele nunca está em conflito com ninguém.

Um mestre Zen estava passando por uma rua. Um homem veio correndo e o golpeou duramente. O mestre caiu. Logo se levantou e voltou a caminhar na mesma direção na qual estava indo antes, sem nem ao menos olhar para trás. Um discípulo estava com o mestre. Ele ficou simplesmente chocado. Ele disse:
"Quem é esse homem? O que significa isso? Se a gente vive desta maneira, qualquer um pode vir e nos matar. E você nem ao menos olhou para aquela pessoa, quem é ela, e por que ela fez isso?"

O mestre disse: "Isso é problema dela, não meu."

Você pode entrar em choque com um iluminado, mas esse é seu problema, não dele. E se você fica ferido nesse choque, isso também é problema seu. Ele não o pode ferir. É como bater contra uma parede - você ficará machucado, mas a parede não o machucou.

O ego sempre está procurando por algum problema. Por quê?

Porque se ninguém lhe dá atenção o ego sente fome. Ele precisa e vive de atenção.

Assim, mesmo se alguém estiver brigando e com raiva de você, mesmo isso é bom, pois pelo menos você está recebendo atenção. Se alguém o ama, isso está bem. Se alguém não o está amando, então até mesmo a raiva servirá. Pelo menos a atenção chega até você. Mas se ninguém estiver lhe dando qualquer atenção, se ninguém pensa que você é alguém importante, digno de nota, então como você vai alimentar o seu ego?

A atenção dos outros é necessária.

Você atrai a atenção dos outros de milhões de maneiras; veste-se de um certo jeito, tenta parecer bonito, comporta-se bem, torna-se muito educado, transforma-se. Quando você sente o tipo de situação que está ocorrendo, você imediatamente se transforma para que as pessoas lhe dêem atenção. Esta é uma forma profunda de mendicância. Um verdadeiro mendigo é aquele que pede e exige atenção. Um verdadeiro imperador é aquele que vive em sua interioridade; ele tem um centro próprio, não depende de mais ninguém.


Se sua esposa foge, se ela pede divórcio, se ela o deixa por outro, você fica totalmente em pedaços - porque ela lhe dava atenção, carinho, amor, estava sempre à sua volta, ajudando-o a sentir-se alguém. Todo o seu império está perdido, você está simplesmente despedaçado. Você até pode  pensar em suicídio. Por quê? Por que, se a esposa o deixa, você deveria cometer suicídio? Por que, se o marido a deixa, você deveria cometer suicídio? Porque você não tem um centro próprio. A esposa estava lhe dando o centro; o marido estava lhe dando o centro.

É assim que as pessoas existem. É assim que as pessoas se tornam dependentes umas das outras. É uma profunda escravidão. O ego tem que ser um escravo. Ele depende dos outros. E somente uma pessoa que não tenha ego é que pela primeira vez deixa de ser uma escrava. Tente entender isso. E comece a procurar o ego - não nos outros, isso não é da sua conta, mas em você.

Toda vez que se sentir infeliz, imediatamente feche os olhos e tente descobrir de onde a infelicidade está vindo, procure em si vá à fonte e você sempre descobrirá que é o falso centro que entrou em choque com alguém.

Você esperava algo e isso não aconteceu. Você esperava algo e justamente o contrário aconteceu - seu ego fica estremecido, você fica infeliz. Simplesmente olhe, sempre que estiver infeliz, tente descobrir a razão.

As causas não estão fora de você.

A causa básica está dentro de você - mas você sempre olha para fora, você sempre pergunta:
Quem está me tornando infeliz?
Quem está causando minha raiva?
Quem está causando minha angústia?

E se olhar para fora, você não perceberá. Simplesmente feche os olhos e olhe para dentro. A origem de toda a infelicidade, a raiva, a angústia, está oculta dentro de você; é o seu ego formado pelas suas expectativas.

E se você encontrar a origem, será fácil ir além dela. Se você puder ver que é o seu próprio ego que lhe causa problemas, você vai preferir abandoná-lo - porque ninguém é capaz de carregar a origem da infelicidade, uma vez que a tenha entendido.

E lembre-se, não há necessidade de abandonar o ego.Você não o pode abandonar.Se você o tentar abandonar, estará apenas conseguindo um outro ego mais sutil, que diz: "Tornei-me humilde".
Não tente ser humilde. Isso é o ego novamente; às escondidas, mas não morto.
Não tente ser humilde. Ninguém pode tentar ser humilde e ninguém pode criar a humildade através do próprio esforço - não. Quando o ego já não existe, uma humildade vem até você. Ela não é uma criação. É uma sombra do seu verdadeiro centro.

E um homem realmente humilde não é nem humilde nem egoísta. Ele é simplesmente simples.Ele nem ao menos se dá conta de que é humilde.

Se você se dá conta de que é humilde, o ego continua existindo. Olhe para as pessoas humildes... Existem milhões que acreditam ser muito humildes. Eles se curvam com facilidade, mas observe-as - elas são os egocentricos mais subtis. Agora a humildade é a sua fonte de alimento. Elas dizem: "Eu sou humilde", e olham para você esperando que você as valorize. Gostariam que você dissesse: "Você é realmente humilde, na verdade, você é o homem mais humilde do mundo; ninguém é tão humilde quanto você." E então observe o sorriso que surge em seus rostos.

O que é o ego? O ego é uma hierarquia que diz: "Ninguém se compara a mim." Ele pode se alimentar da humildade - "Ninguém se compara a mim, sou o homem mais humilde.

 

É assim que o ego funciona. Ele é tão subtil! Suas maneiras são tão subtis e astutas; deve estar muito, muito alerta, somente então você o perceberá. Não tente ser humilde. Apenas tente ver que todo o tormento, toda a angústia vem através do ego.

Apenas observe! Não há necessidade de o abandonar. Você não o pode abandonar. Quem o abandonará? Então o abandonador se tornará o ego. Ele sempre volta. Faça o que fizer, fique de fora, olhe, e observe. Qualquer coisa que você faça - modéstia, humildade, simplicidade - nada vai ajudar. Somente uma coisa é possível, e esta é simplesmente observar e ver que o ego é a origem de toda a infelicidade. Não diga isso. Não repita isso.Observe.

Porque se eu disser que ele é a origem de toda a infelicidade e você repetir isso, então será inútil. Você tem que chegar a esse entendimento pela sua experiência. Sempre que você estiver infeliz, apenas feche os olhos e não tente encontrar alguma causa externa. Tente perceber de onde está vindo essa miséria. Ela está vindo do seu próprio ego.

Se você continuamente percebe e compreende, e a compreensão de que o ego é a causa chega a se tornar profundamente enraizada, um dia você repentinamente verá que ele desapareceu. Ninguém o abandona - ninguém o pode abandonar. Você simplesmente vê; ele simplesmente desapareceu, porque a própria compreensão de que o ego é a causa de toda a infelicidade, se torna o abandonar. A própria compreensão significa o desaparecimento do ego. E você é tão brilhante em perceber o ego nos outros. Qualquer um pode ver o ego do outro. Mas quando se trata do seu, surge o problema - porque você não conhece o território, você nunca viajou por ele. Todo o caminho em direção ao divino, ao supremo, tem que passar através desse território do ego. O falso tem que ser entendido como falso. A origem da miséria tem que ser entendida como a origem da miséria - então ela simplesmente desaparece.

Quando você sabe que ele é o veneno, ele desaparece.

Quando você sabe que ele é o fogo, ele desaparece.

Quando você sabe que este é o inferno, ele desaparece.

E então você nunca diz: "Eu abandonei o ego." Então você simplesmente ri de toda esta história, dessa piada, pois você era o criador de toda a infelicidade.

 

No ocidente existem muitas escolas de psicanálise, muitas escolas, e nenhuma ajuda está chegando às pessoas, mas em vez disso, causam danos. Porque as pessoas que estão ajudando as outras, ou tentando ajudar, ou pretendendo ser de ajuda, encontram-se no mesmo barco.

É difícil ver o próprio ego.

É muito fácil ver o ego dos outros. Mas esse não é o ponto, você não os pode ajudar.

Tente ver o seu próprio ego. Simplesmente observe.

Não tenha pressa de o abandonar, simplesmente observe. Quanto mais você observa, mais capaz você se torna. De repente, um dia, você simplesmente percebe que ele desapareceu. E quando ele desaparece por si mesmo, somente então ele realmente desaparece. Não existe outra maneira. Você não o pode abandonar prematuramente.

Ele cai exatamente como uma folha seca.

A árvore não está fazendo nada - apenas uma brisa, uma situação, e a folha seca simplesmente cai. A árvore nem mesmo percebe que a folha seca caiu. Ela não faz qualquer barulho, ela não faz qualquer anúncio - nada. A folha seca simplesmente cai e se despedaça no chão, apenas isso. Quando você tiver amadurecido através da compreensão, da consciência, e tiver sentido com totalidade que o ego é a causa de toda a sua infelicidade, um dia você simplesmente vê a folha seca caindo. Ela pousa no chão e morre por si mesma. Você não fez nada, portanto você não pode afirmar que você a deixou cair. Você vê que ela simplesmente desapareceu, e então o verdadeiro centro surge.

E este centro verdadeiro é a alma, o eu, o   Deus, a verdade, ou como o quiser chamar.

Ele é inominável, assim todos os nomes são bons.

Você pode lhe dar qualquer nome, aquele que preferir.

 

Extraído do livro "Além das Fronteiras da Mente"

Osho

 



publicado por Sou às 21:42
Sexta-feira, 19 de Outubro de 2007





Só se encontra a sabedoria,

no momento que nos libertamos da sua busca,
quando deixamos de ter necessidade
de encontrar ou viver com representações.

Quando encontramos a paz interior
e permitimo-nos a escutar a Vida na sua plenitude.
 
Quando aceitamos a nossa natureza fisica,
como parte integrante de tudo o que nos rodeia.
No silencio sincero e pacifico é onde se encontra a verdade.
 


Paulo Ramos de Sousa



publicado por Sou às 22:37
Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

 

Ando devagar porque já tive pressa
E levo esse sorriso porque já chorei demais
Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe
Eu só levo a certeza de que muito pouco eu sei
E nada sei
 
Conhecer as manhas e as manhãs,
o sabor das massas e das maçãs
É preciso amor pra poder pulsar,
é preciso paz pra poder sorrir
É preciso chuva para florir
 
Penso que cumprir a vida seja simplesmente
Compreender a marcha e ir tocando em frente
Como um velho boiadeiro levando a boiada
Eu vou tocando os dias pela longa estrada eu vou
Estrada eu sou
...
Todo mundo ama um dia, todo mundo chora
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
E cada ser em si carrega o dom de ser capaz
De ser feliz



publicado por Sou às 22:20
Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007

 

Vocês sabem lá
a saudade de alguém que está perto
é mais, é pior
do que a sede que dá no deserto
é chama que a vida ateia sem dó
na alma da gente, ao sentir
que vive só

Vocês sabem lá
que tormento é viver sem esperança
e ter coração
coração que não dorme nem cansa
Não há maior dor nem viver mais cruel
que sentir o amargo do fel
em vez de mel,
vocês sabem lá,...



publicado por Sou às 21:36
Quinta-feira, 18 de Outubro de 2007


 
Foi no jardim de um hospício que encontrei um jovem de face pálida e formosa, e cheia de espanto...
Sentei-me ao seu lado e perguntei-lhe:
 
— Por que está aqui ?
E ele olhou-me, admirado, e disse:
— É uma pergunta indiscreta; contudo, vou responder-lhe.
Meu pai queria fazer de mim uma reprodução de si próprio; o mesmo queria meu tio.
Minha mãe pretendia fazer de mim a imagem de seu ilustre pai.
Minha irmã considerava seu marido marinheiro como o exemplo perfeito que eu deveria seguir.
Meu irmão achava que eu tinha que ser como ele, um excelente atleta.
E meus professores também...
O de filosofia...
O professor de música...
O de lógica, cada um queria que eu não fosse senão o reflexo de sua própria face.
Desta forma, vim pra este lugar...
Pelo menos posso ser eu mesmo...
 
Depois, subitamente, virou-se para mim e perguntou:
— Mas, diga-me, o senhor também foi trazido a este lugar pela educação e o bom conselho ?
E eu respondi: — Não, eu sou um visitante.
E ele disse:
— Ah, o senhor é um daqueles que vivem no hospício do outro lado da muralha.

 

Gibran Khalil Gilbran

 



publicado por Sou às 19:00
Terça-feira, 16 de Outubro de 2007


  Outra das músicas perfeitas que não esqueço.

 



publicado por Sou às 07:30
Sábado, 13 de Outubro de 2007

 Há músicas que quando as ouvimos, elas ficam guardadas  para sempre. Nem sei bem o que a melodia e letra  me diz, mas diz-me algo bem profundo, por isso  aqui fica.  Isto é lindissimo

 

 

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um caco de vidro, é a vida, é o sol
é a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
é peroba do campo, é o nó da madeira
caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
é o mistério profundo
é o queira ou não queira
é o vento ventando, é o fim da ladeira
é a viga, é o vão, festa da cumeeira
é a chuva chovendo, é conversa ribeira
das águas de março, é o fim da canseira
é o pé, é o chão, é a marcha estradeira
passarinho na mão, pedra de atiradeira

Uma ave no céu, uma ave no chão
é um regato, é uma fonte
é um pedaço de pão
é o fundo do poço, é o fim do caminho
no rosto o desgosto, é um pouco sozinho

É um estrepe, é um prego
é uma ponta, é um ponto
é um pingo pingando
é uma conta, é um conto
é um peixe, é um gesto
é uma prata brilhando
é a luz da manhã, é o tijolo chegando
é a lenha, é o dia, é o fim da picada
é a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
é o projeto da casa, é o corpo na cama
é o carro enguiçado, é a lama, é a lama
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um resto de mato, na luz da manhã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é uma cobra, é um pau, é João, é José
é um espinho na mão, é um corte no pé
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho
é um passo, é uma ponte
é um sapo, é uma rã
é um belo horizonte, é uma febre terçã
são as águas de março fechando o verão
é a promessa de vida no teu coração

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho

É pau, é pedra, é o fim do caminho
é um resto de toco, é um pouco sozinho

Pau, pedra, fim do caminho
resto de toco, pouco sozinho

Pau, pedra, fim do caminho,
resto de toco, pouco sozinho

Tom Jobim/ Elis Regina



publicado por Sou às 12:47
Sábado, 13 de Outubro de 2007


Para ti que andas ao acaso pela rua
     e procuras ver nos outros
     a alegria que nunca pudeste ter;
para ti que choras e te fechas no teu quarto,
     quando julgas terminado
      o que ainda nem sequer já começou;


Vai esta canção de coragem e de amor,
     de esperança pelo dia de amanhã;
também já senti, como tu, a solidão,
     fui na sorte e na tristeza teu irmão.

Amanhã, amanhã
   outro dia nascerá dentro de ti.
Amanhã, amanhã,
  acredita, finalmente sorrirás.

Para ti que vives e já estavas desiludido,
e que hoje aqui te encontras
em busca de paz, amor, felicidade;
para ti que vieste à procura de um ideal,
e com tuas próprias mãos
te pertence um futuro universal.

Vai esta canção de coragem e de amor...


Música: desconhecido
Letra: desconhecido

 



publicado por Sou às 11:46
Sábado, 13 de Outubro de 2007

 

 

 



publicado por Sou às 11:00
Segunda-feira, 08 de Outubro de 2007

 



A história da eletricidade começa há dois mil e quinhentos anos atrás, perto da costa ocidental da Terra que hoje conhecemos como Turquia.
Havia ali uma cidade chamada Magnésia, cujos habitantes falavam o grego. Nos arredores da cidade, um  pastor menino vigiava o seu rebanho. Usava um bastão com uma ponta de ferro, para escalar lugar pedregosos.
Certo dia, tocou uma pedra com a ponta do bastão, que lhe pareceu ficar preso ali. Haveria algo pegajoso na pedra? Tocou-a. não havia. Nada se prendia a ela, a não ser a ponta de ferro do bastão. O menino contou aos outros a descoberta.
Naquela região vivia um homem inteligente, de nome Tales. Nos dias de hoje, seria chamado de cientista. Tales ouviu falar na pedra de Magnésia, e conseguiu que a trouxessem para ele. A pedra atraía objetos de ferro, e nada mais.
Tales chamou-a de “pedra magnética”, por causa do nome da cidade. Conhecemo-la, porém, como “ímã”. Intrigava a Tales o fato de um pedaço de pedra atrair outras coisas. Queria saber por que atraía somente ferro. Teriam outros objetos aquela mesma estranha capacidade? Testou outras matérias. Uma foi uma substância vítrea, dourada. Chamamo-la “âmbar”, mas em grego era conhecida como “elektron”.
O âmbar não atrai ferro. Tem, contudo, odor agradável, que se acentua quando friccionado com os dedos. Tales provavelmente o fez, e notou que, depois disso, atraía algumas coisas, como pequeninos pedaços de felpo, linha, penas e lascas de madeira. Não era desse modo que agia a pedra magnética. Era diferente a atração do âmbar.
Tales não tinha explicação para o fato, mas registrou o que havia feito. Outras pessoas o leram e refletiram sobre suas experiências.
Verificou-se que as pedras imantadas tinham utilidade. Se uma agulha de aço for tocada por uma delas, transforma-se também em ímã. Passa então a atrair objetos de ferro. Se uma agulha imantada for colocada numa rolha de cortiça, a flutuar na água, ou posta sobre um pino, girará de modo que uma das extremidades apontará para o norte. Os marinheiros usam esse recurso para se orientarem, quando não conseguem ver a terra.
Essas agulhas imantadas, que apontavam para o norte, eram chamadas de “bússolas”. Por volta de 1400, os navegantes europeus usavam-nas para cruzar os oceanos e explorar terras distantes. Teria sido muito difícil a Cristóvão Colombo descobrir a América, em 1492, não fora a existência de bússolas a bordo.
E o âmbar? Não parecia Ter utilidade, e poucos o levaram em consideração.
Por volta de 1570, um inglês chamado William Gilbert começou a trabalhar com ímãs. Também interessou-se pelo âmbar. Por que atraía objetos depois de friccionado? Que haveria de especial nele?
Por ser de bela cor, usava-se o âmbar na fabricação de jóias. Teriam também outras pedras preciosas capacidade de atrair, quando friccionadas? Gilbert testou-as, e descobriu que também atraíam objetos leves. Diamantes, safiras e opalas, por exemplo, agiam como âmbar. Alguns cristais de rocha, ordinários ou sem brilho para serem considerados pedras preciosas, também apresentavam tal propriedade.
Não ignorava Gilbert que o âmbar era chamado de “elektron” em grego, e de “electrum”, em latim. Por isso chamou a todas as substâncias que tinham capacidade de atrair coisas após friccionadas, de “elétricas”. Usou a palavra para mostrar que tinham a mesma propriedade do âmbar.
Que é porém, a atração? Como chamamos a estranha força que faz com que um pequeno pedaço de papel se prenda a um pedaço de âmbar friccionado? Por volta de 1650. Um inglês, de nome Walter Charleton, chamou-a de “eletricidade”.
Naquela ocasião, os povos da Europa foram-se tornando mais e mais interessados na natureza. Surgiam perguntas e experiências, denotativas de extremo interesse e curiosidade.
O âmbar, por exemplo, atraía objetos leves quando friccionado. E se fosse bastante friccionado? A atração seria mais forte? Seria o âmbar capaz de conter mais e mais eletricidade?
O homem que fez essa experiência foi um alemão, Otto Von Guericke. Friccionou um pedaço de âmbar com um pano, o máximo que pôde. Quando o pressionava entre os dedos, ouvia pequenos estalos. Se o fizesse na escuridão, percebia uma pequena fagulha de luz a cada estalo.
Talvez o âmbar não pudesse conter toda a eletricidade causada pela fricção. Era possível que parte da eletricidade estivesse escapando novamente, provocando, enquanto escapava, fagulhas e estalos.
Uns e outros, porém, eram tão pequenos que Guericke estava ficando impaciente. Se quisesse continuar a experiência, teria de acumular mais eletricidade no âmbar. Para isso, precisaria de um pedaço maior. Mas, como grandes pedaços de âmbar eram caros. Guericke usou, em 1672, uma substância amarela chamada enxofre. Era uma substância elétrica que atraía objetos leves quando friccionada, e era mais barata que o âmbar.
Quebrou em pedaços uma grande quantidade de enxofre e os colocou num frasco redondo de vidro. Aqueceu o frasco e o enxofre derreteu. Foi adicionando mais e mais enxofre, até que o frasco ficou cheio. Então atravessou o enxofre com uma manivela de madeira e deixou-o esfriar. O enxofre endureceu, formando uma sólida bola amarela.
Cuidadosamente, Guericke quebrou o frasco e removeu os pedaços de vidro. Tinha nas mãos uma bola de enxofre, maior do que sua cabeça, com uma manivela em um dos lados. Ele colocou essa bola num suporte de madeira. Podia girá-la usando a manivela. Se pudesse a outra mão sobre a bola de enxofre, enquanto girasse, a fricção a encheria de eletricidade.
Ninguém, antes, havia conseguido pôr tanta eletricidade num único lugar. A bola de enxofre provocava altos estalos quando “carregada”, provocava fagulhas brilhantes, visíveis mesmo à luz do dia.
Guericke foi o primeiro homem que inventou uma “máquina de fricção” para produzir eletricidade.
Muitas pessoas ficaram interessadas em pesquisas sobre a eletricidade, depois de tomarem conhecimento das experiências de Guericke.
Um inglês, Stephen Gray, decidiu fazer experiências próprias. Usou o vidro como substância elétrica, porque era mais barato e dele podia dispor de grandes quantidades.
Se Guericke tivesse sabido que o vidro era boa substância elétrica, não teria quebrado o vaso de vidro redondo em torno do enxofre, ao fazer sua experiência, anos antes. Teria usado somente o vidro e deixado de lado o enxofre.
Gray friccionou um tubo longo e oco, de vidro, com mais ou menos um metro de comprimento. O tubo atraiu penas, mostrando que a eletricidade havia penetrado nele.
Como o tubo era aberto em ambas as extremidades, Gray pensou que a poeira pudesse penetrar nele, inutilizando sua experiência, e, por isso, vedou-as com rolhas de cortiça. Então, notou um fato estranho: as penas eram atraídas para as rolhas, também. Ela, porém, havia friccionado apenas o vidro, e não as rolhas. Concluiu que, ao colocar eletricidade no tubo, ele penetrara, também, nas rolhas de cortiça.
Poderia isso ser verdade? A eletricidade podia viajar? Gray fez outras experiências para testar tal possibilidade. Introduziu a ponta de uma vareta de uns dez centímetros de comprimento numa das rolhas do tubo. A outra ponta da vareta foi presa a uma bola de marfim.
Depois, friccionou somente o vidro. Trabalhou com cuidado, evitando tocar na rolha, na vareta ou na bola de marfim. As penas agarraram-se à bola de marfim, ao ser friccionado o tubo. Não havia engano. A eletricidade viajava.
Água e ar podem ser postos a viajar através de tubos ocos. É o que chamamos de “corrente”. Líquidos e gases podem correr: o rio é uma corrente de água e o vento é uma corrente de ar.
O que Gray havia, portanto, demonstrado era que a eletricidade podia correr através dos objetos. Era, também, uma corrente. Desde aquela ocasião, as pessoas começaram a falar em “corrente elétrica”.
A seguir, Gray tentou descobrir até onde podia fazer viajar a eletricidade. Pôs a bola de marfim pendurada num pedaço de barbante, preso a uma das rolhas do tubo. Continuou usando pedaços maiores, até que a bola de marfim ficou na extremidade de um barbante com uns dez metros de comprimento. Mesmo assim, atraía penas.
Ele queria tentar distâncias maiores, mas, para usar os dez metros de barbante, tivera de ficar no telhado da casa. Gray teve outra idéia. Estenderia o barbante ao longo do teto de sua oficina, prendendo-o com pregos.
Estendeu vários metros, indo e voltando em sua oficina. As duas pontas do barbante ficaram pendentes no teto. Numa delas, Gray prendeu o tubo de vidro. Na outra, a bola de marfim.
Mas, dessa vez, a bola de marfim não atraiu pena alguma, por mais que Gray friccionasse o tubo de vidro. Parecia que, subitamente, a eletricidade havia parado de correr. Seria o barbante muito longo? Teria ele achado, finalmente, um trajeto extenso demais para a eletricidade?
Não, não podia ser, porque o próprio tubo havia parado de atrair penas, depois de friccionado. O problema não era o percurso da eletricidade. É que não havia mais eletricidade ali. Alguma coisa estava prejudicando a experiência – alguma coisa que ele havia feito anteriormente. Que poderia ter sido?
Até aquele instante, havia deixado o barbante pendurado. Mas, depois, havia-o prendido ao teto com pregos. Seriam os pregos? Talvez a corrente elétrica tivesse passado pelos pregos, ido para o teto e desaparecido no ar. Talvez os pregos fossem muito grossos e isso permitisse que a eletricidade penetrasse neles. Deveria usar algo mais fino?
Gray tinha uns fios de seda. Finos, mas resistentes. Amarrou um pedaço de fio de seda em cada prego e, em cada um desses pedaços, pendurou o barbante. Desse modo, a corrente elétrica, ao passar pelo barbante, não poderia alcançar os pregos, a menos que atravessasse os fios de seda, primeiro. Se o fio de seda fosse fino o bastante para não deixar que a ele a eletricidade passasse por ele, a experiência teria êxito.
Fez o teste, e deu certo. A corrente elétrica atravessou cem metros de barbante de ponta a ponta. Quando friccionava o vidro numa das extremidades do barbante, a bola de marfim, na outra ponta, atraía as penas.
Gray continuou aumentando o comprimento do barbante, mas ele ficou tão pesado que acabou quebrando os fios de seda que o prendiam.
Decidiu usar um arame de latão, em vez de fios de seda. Novamente a corrente elétrica desapareceu. Devia Ter escapado pelo arame de latão. Gray concluiu que o material de que o fio era feito deveria ser mais importante que sua espessura.
Em novas experiências descobriu que a eletricidade fluía melhor ou era melhor “conduzida” através do metal do que através de qualquer outra coisa. Por essa razão, metal ou qualquer outro material pelo qual a eletricidade possa facilmente passar, é chamado de “condutor”. O material que a eletricidade atravessa com dificuldade é um “não-condutor”, como a seda, por exemplo.
Gray pôde entender, então, por que o vidro, âmbar, enxofre e outros materiais eram eletrificados por fricção. Eram todos não condutores. Uma vez friccionados, enchiam-se de eletricidade que não podia ir a parte alguma.
Se um condutor, como um pedaço de metal, fosse friccionado, o fluido penetraria em quase tudo que o tocasse, tão rápida e facilmente que nenhuma eletricidade ficaria no metal. E, se o metal tocasse num não-condutor, tiraria todo o fluido elétrico que o não-condutor pudesse conter.
Em 1731, Gray testou sua teoria, colocando pedaços de metal em blocos de resina. A resina, substância muito semelhante ao âmbar, é não-condutora. Em vez de friccionar o metal com a mão, ele usou um lenço de seda, que é também não-condutor. Apenas a resina, a seda e o ar, que eram não-condutores, tocaram o metal.
A fricção produziu eletricidade no metal e ela não conseguia escapar através dos não-condutores. Permanecia no metal que, então atraía as penas.
Gray prendeu até um menino ao teto, com fortes fios de seda, e friccionou-lhe o braço Dom a seda. Pouco depois, penas prenderam-se ao menino e à sua roupa.
Gray estava pronto a mostrar que qualquer coisa pode ser carregada de fluido elétrico, se friccionada.
As notícias sobre as descobertas de Gray logo alcançaram outras partes da Europa. Na França, em 1733, Charles Francis Du Fay iniciou algumas experiências.
Cobriu um pequeno pedaço de cortiça com finíssima camada de ouro e pendurou-a, por um fio de seda, ao teto. Tocando o pedaço de cortiça com uma vara eletrificada, essa eletricidade passaria para a cortiça e, depois, para a camada superficial do ouro, já que o ouro era bom condutor. Sendo a cortiça e o ouro tocados pela linha de seda e pelo ar, a eletricidade não poderia escapar.
Se Du Fay quisesse que ela escapasse, depois de a cortiça estar eletrificada, tudo o que teria que fazer seria tocá-la com um pedaço de metal. O fluido elétrico imediatamente passaria para o metal, e a cortiça seria descarregada.
A seguir, Du Fay preparou outro pedaço de cortiça, do mesmo modo que o primeiro, e o pendurou ao lado dele, no teto. Tinha, então, dois pedaços de cortiça, colocados lado a lado, e afastados cinco centímetros um do outro. Certificou-se que não havia correntes de ar na sala, para que os dois pedaços de cortiça não saíssem da posição vertical. Calculou que um do pedaços de cortiça, se eletrificado, poderia atrair outro.
Friccionou um bastão de vidro com um pedaço de sedam, até enchê-lo de fluido elétrico. Depois tocou com o bastão um dos pedaços de cortiça, passando para ele o fluido.
Aconteceu exatamente o que se esperava. Houve uma atração entre a cortiça eletrificada e a que não havia sido tocada. Os dois pedaços de cortiça, com cobertura de ouro, em vez de ficarem pendurados verticalmente, inclinaram-se um para o outro.
Mas se ambos os pedaços fossem eletrificados? Então ambos atrairiam. Parecia a Du Fay que isso duplicaria a atração, fazendo com que os dois pedaços de cortiça se atraíssem muito mais.
Du Fay fez a experiência. Colocou dois pedaços de cortiça pendurados no teto. A seguir, friccionou o bastão de vidro, tocando primeiro um dos pedaços de cortiça, depois o outro. Para seu espanto, a atração entre os pedaços de cortiça não ficou mais forte. Estavam afastando-se um do outro, ou “repelindo-se”.
Era incrível. Assim é que agia a eletricidade? Ou havia algo errado com o bastão que estava usando? Talvez devesse usar material completamente diverso. Começou com um de resina. Friccionou-a com lã, que funciona melhor na resina do que seda. Quando a resina se tornou eletrificada, encostou-a nos dois pedaços de cortiça. Imediatamente afastaram-se um do outro. Repeliam-se.
Havia uma coisa que Du Fay poderia tentar. Friccionou um bastão de vidro com seda e com ele tocou um pedaço de cortiça. Depois, friccionou o bastão de resina com lã e tocou o outro pedaço de cortiça. Dessa vez, houve atração. Os dois pedaços de cortiça, cheios de fluido elétrico, atraíram-se.
Concluiu que havia dois tipos de fluidos elétricos. Um era o tipo de fluido que enchia o vidro quando era friccionado. Vamos chamá-lo de fluido vítreo. O outro era o que enchia a resina – o fluido resinoso. Se dois pedaços de cortiça ficassem cheios do mesmo tipo de fluido, repelir-se-iam. Se ficassem cheios de fluidos diferentes, atrair-se-iam.
Du Fay fez outros testes para comprovar o fato. Tocou um pedaço de cortiça com um bastão de vidro eletrificado e deixou que a cortiça se enchesse de fluido vítreo. Então afastou o bastão e, depois, vagarosamente, aproximou-o do mesmo pedaço de cortiça. É claro que o bastão de vidro e o pedaço de cortiça, ambos cheios do mesmo tipo de fluido, se repeliram. O pedaço de cortiça fugia do bastão de vidro.
Contudo, quando aproximava o bastão de resina do pedaço de cortiça, ele o atraía. A cortiça aproximava-se do bastão de resina.
Se enchesse o pedaço de cortiça com o fluido do bastão de resina, deva-se o contrário. O bastão de resina repelia a cortiça, e o de vidro a atraía.
Du Fay testou outros materiais. Descobriu que, quando eletrificava um objeto, esse sempre agia como se estivesse cheio de fluido vítreo ou de fluido resinoso. Havia somente aqueles dois tipos de fluidos. Não existia um terceiro.
Enquanto isso, outra pessoas estavam descobrindo meios de acumular grandes quantidades de eletricidade em pequenos objetos.
Por volta de 1745, por exemplo, algumas pessoas começaram a trabalhar com garrafas de vidro parcialmente cobertas, interna e externamente, com uma fina camada de metal. Na abertura da garrafa, havia uma rolha de cortiça. Uma vara de latão, com uma corrente do mesmo material na base, atravessava a cortiça. A corrente de latão fazia contato com o metal que cobria o vidro, na base da garrafa.
Quando um bastão de vidro eletrificado era encostado à vara de latão que saía da garrafa, um pouco de fluido elétrico passava pelo metal, para dentro da garrafa. Uma vez lá, não podia escapar, por serem a cortiça e o vidro não-condutores.
Se o bastão de vidro fosse eletrificado novamente, mais fluido elétrico iria Ter à garrafa. Consequentemente, bastante fluido poderia ser passado para a garrafa, para torná-la altamente carregada de eletricidade.
Um dos inventores desse tipo de garrafa foi um professor holandês, Pieter van Musschenbroek. Trabalhava na universidade de Leyden, na Holanda, e, por isso, o novo invento passou a chamar-se “garrafa de Leyden”.
Quanto mais eletricidade for introduzida na garrafa, tanto mais força ela fará parar para sair. É como colocarem-se mais e mais roupas dentro de uma mala. Quanto mais se põe, tanto mais ela pressiona o tapo da mala. A mesma coisa acontece com a garrafa de Leyden. Quanto mais carga receba, mais facilmente pode suceder algo que faça descarregar e deixar escapar o fluido.
A primeira pessoa que trabalhou com a garrafa de Leyden descobriu que, estando ela completamente carregada, pode ser perigosa. Um toque descuidado na vara de latão, no topo da garrafa, permite que toda eletricidade saia e passe para a mão que a tenha tocado.
Musschenbroek testou a primeira garrafa de Leyden que fez, sem calcular a grande quantidade de carga que ali havia colocado. Ao tocar a vara de metal, tornou-se o primeiro homem que recebeu um “choque elétrico” de verdade. O choque, que o deixou desacordado, pô-lo de cama durante dois dias. Depois disso, passou a manejar a garrafa de Leyden com mais cuidado.
Quando a garrafa de Leyden era descarregada por algum outro modo, podia-se ver o que acontecia quando uma grande quantidade de fluido elétrico escapava. Se uma garrafa de Leyden fosse descarregada em arames finos, o fluido elétrico, correndo através dos fios, esquentava-os e derretia-os.
Vamos supor que um pedaço de metal seja aproximado da vara de latão no topo de uma garrafa de Leyden, de modo que possa descarregá-la, se a tocar. Enquanto a garrafa não for tocada, haverá uma camada de ar entre ela e o metal. O ar é não condutor e, por isso, a garrafa não será descarregada.
Se o metal for mais aproximado da vara de latão, a camada de ar entre eles se tornará mais estreita. Quanto mais fina a camada de ar, tanto menos não-condutor ele será. Finalmente, não haverá ar o suficiente para evitar a descarga.
O fluido elétrico, então, forçará sua saída da garrafa de Leyden na direção do metal. Quando atravessar o ar, irá esquentá-lo e inflamá-lo. O ar aquecido se expandirá e logo voltará ao normal, produzindo um som característico.
Quando uma garrafa de Leyden é descarregada, há uma forte centelha e estalo agudo.
As notícias sobre essas experiências cruzaram o Oceano Atlântico e alcançaram a Pensilvânia, uma das colônias britânicas na América. Ali, um americano, de nome Benjamin Franklin, recebeu uma garrafa de Leyden da Inglaterra, em 1747. Intrigava-o saber de onde vinha o fluido elétrico. Se alguém friccionava um bastão de vidro e o enchia de eletricidade, viria o fluido da mão que o friccionara? E de onde a mão tirava? Do chão?
Franklin decidiu fazer um teste. Colocou um homem, de pé, sobre um bloco de cera. A cera é não-condutora, portanto, enquanto o homem, que segurava um bastão de vidro, não fosse tocado por coisa alguma, exceto pela cera e pelo ar ao seu redor, nenhuma eletricidade poderia penetrar nele.
O homem friccionou o bastão da maneira usual, e o bastão tornou-se eletrificado, atraindo objetos leves. De onde teria vindo a eletricidade?
Tinha de ser do próprio homem. Devia estar com eletricidade o tempo todo, mas, por alguma razão, ela não aparecia. Quando friccionou o bastão, passou-se por ele. Mas, e o homem? Ele havia perdido o fluido que penetrara no bastão. Qual seria o resultado disso?
Fazendo novo teste, Franklin colocou outro homem num segundo bloco de cera. O primeiro homem tocou o segundo com o bastão de vidro eletrificado, e o fluido elétrico passou-se para ele. O segundo homem ficou eletrificado. As penas agarravam-se a ele. Se pusesse a mão perto de um condutor, haveria uma centelha e ele não mais ficaria eletrificado. Estaria descarregado.
Mas e o primeiro homem que havia perdido a eletricidade para o segundo? Ele estava eletrificado, também. Podia do mesmo modo atrair penas. Podia, também, ser descarregado, e provocaria uma centelha, quando isso acontecesse.
E, o que é mais, os dois homens tinham cargas elétricas diferentes. O segundo homem, que havia sido eletrificado pelo bastão de vidro, tinha o que Du Fay consideraria eletricidade vítrea. O primeiro tinha eletricidade resinosa. (isso podia ser provado, preparando-se pequenos pedaços de cortiça, alguns dos quais eram eletrificados com o bastão de vidro e outros com o bastão de resina. Então podia-se ver quais eram atraídos por cada homem e quais eram repelidos.)
Parecia a Franklin que era isso que estava acontecendo.
Cada objeto contém certa quantidade de fluido elétrico, mas comporta-se como se fosse não-eletrificado. Não atrai coisa alguma.
No ato da fricção, certa quantidade de fluido elétrico é tirada de um objeto ou passada para ele. O objeto, então, fica com mais ou com menos quantidade do que o normal. Em qualquer dos casos, age como se tivesse carga elétrica. Se possuísse mais do que a quantidade normal, Franklin diria que estava “carregando positivamente”. Se tivesse menos, estaria “carregando negativamente”. Dois objetos com carga positiva se repelem. Cada um deles já tem suficiente eletricidade e não precisa da eletricidade do outro. Se dois objetos têm carga negativa, também se repelem. Cada um deles tem menos eletricidade do que a suficiente, e nenhum dos objetos cede parte dela para o outro.
Porém, se um dos objetos tem carga positiva e o outro carga negativa, as coisas se tornam diferentes. O objeto com carga positiva tem fluido elétrico extra, de que pode dispor, enquanto o outro tem menos fluido elétrico do que necessita. Por isso, os dois objetos se atraem e, quando se tocam, o fluido elétrico sai do objeto carregado positivamente para o objeto carregado negativamente. Depois disso, cada um deles fica com quantidade certa de eletricidade e nenhum dos dois está carregado. As duas cargas opostas “neutralizaram” cada um deles.
Franklin confirmou isso. Fez com que um homem friccionasse um bastão de vidro e tocasse outro homem com ele. Então, um ficou com mais fluido elétrico do que o outro. Ambos estavam eletricamente carregados – um com carga positiva e outro com carga negativa. Franklin mandou que os dois homens estendessem as mãos e se tocassem com os dedos. Quando o fizeram, o fluido elétrico saltou de um para outro. Uma centelha surgiu entre seus dedos. Ambos os homens sentiram uma espécie de formigamento nos dedos. Então, nenhum dos dois ficou mais eletrificado.
O problema então era: qual tipo de carga elétrica era positiva e qual era negativa? Quando o vidro era friccionado com seda, ficava com mais do que a quantidade normal de fluido elétrico ou com menos? Franklin não sabia dizer. Fez, porém uma suposição.
Concluiu que o vidro ficava com menos do que a quantidade normal de fluido elétrico, depois de Ter sido friccionando e ficava conduzindo uma carga negativa. Por outro lado, o bastão de resina., que tinha outro tipo de carga, conduzia uma carga positiva. Todas as outras cargas elétricas foram comparadas com as da resina e do vidro e eram descritas como positivas e negativas, dependendo de seus comportamentos serem semelhantes aos de um ou aos de outro.(Muitos anos mais tarde, quando os cientistas puderam penetrar mais profundamente no assunto, com métodos que Franklin não usara, descobriram que ele havia chegado à conclusão errada. Era o vidro que possuía mais do que a quantidade normal de fluido não a resina. Contudo, isso não desmerecia a teoria básica de Franklin.)
Depois de haver estudado o comportamento do fluido elétrico, Franklin pôde explicar como uma garrafa de Leyden funcionava. Um bastão comum, de determinado tipo de material, poderia apanhar somente uma carga positiva ou negativa quando friccionado. Quanto mais carga elétrica ia sendo introduzida nele, tanto mais difícil se tornava a introdução de nova carga. Após algum tempo, ele estaria suportando o máximo que podia.
Numa garrafa de Leyden, contudo, a cobertura de metal num dos lados do vidro era negativamente carregada, enquanto a cobertura de metal do outro lado era positivamente carregada. O vidro entre as duas coberturas evitava que se juntassem e se neutralizassem. A carga negativa de uma cobertura de metal atraía a carga positiva da outra cobertura, e vice-versa. Como resultado, a carga total nas coberturas metálicas, podia ser maior do que a existente num pedaço de qualquer material do mesmo tamanho.
A seguir, Franklin estudou a fagulha e o estalo que surgiam quando uma garrafa de Leyden era descarregada. Lembravam-lhe os raios e os trovões numa tempestade.
Que seriam, na verdade, os raios e os trovões? Talvez, quando uma tempestade se estivesse formando, as nuvens e a terra agissem como uma enorme garrafa de Leyden,. Talvez as nuvens mostrassem uma carga negativa e a terra uma carga positiva (ou vice-versa), com o ar entre elas agindo como um não-condutor. Quando carga suficiente fosse acumulada nas nuvens, o impulso de descarga tornava-se tão grande que o fluido elétrico forçava sua passagem através do ar. Havia uma centelha gigantesca, que chamamos de raio, e um enorme estalo, que conhecemos domo trovão.
A quantidade de carga acumulada antes da descarga era enorme, e, por isso, a descarga era enorme também. Se uma casa recebesse a descarga daquela quantidade de fluido elétrico, incendiar-se-ia. Se fosse num homem, o efeito poderia matá-lo.
Em junho de 1752, Franklin pensou em testar sua teoria, empinando uma pipa durante uma tempestade. Amarrou uma vara metálica, pontiaguda, na armação de madeira da pipa, e prendeu nessa vara certa extensão de barbante. Amarrou o barbante a um fio e, na outra ponta prendeu uma chave de metal.
Se houvesse eletricidade nas nuvens, penetraria na vara metálica presa à pipa, seria conduzida para baixo pelo barbante molhado, passaria ao fio e alcançaria a chave. Para evitar que a carga chegasse até ele, pois poderia matá-lo. Franklin prendeu um fio de seda ao fio que sustentava a pipa e segurou nele. A eletricidade não passaria pelo fio de seda, enquanto seco. Por isso, teve o cuidado de permanecer sob uma cobertura, a empinar a pipa.
As nuvens de tempestade se juntavam. Pouco depois, Franklin percebeu que os filamentos do fio da pipa se afastavam um do outro, como se todos tivessem recebido mesma carga elétrica e se estivessem se repelindo.
Cuidadosamente, aproximou o dedo da chave, na ponta do fio. Uma centelha saltou da chave para seu dedo e Franklin sentiu nele um formigamento. Parecia-lhe a mesma centelha e o mesmo formigamento que surgiam quando o fluido elétrico era descarregado no laboratório.
Havia trazido uma garrafa de Leyden descarregada. Encostou a vara metálica na chave e testou a garrafa. Estava carregada de eletricidade e comportava-se como se a eletricidade tivesse sido produzida por um bastão de vidro eletrificado.
Franklin havia provado que o raio era uma faísca elétrica. Havia provado que a eletricidade formada nas nuvens era a mesma formada no laboratório.
Havia feito algo mais. Em 1747, havia feito experiências com a primeira garrafa de Leyden que recebera. Mas, em vez de usar uma vara de latão com a ponta rombuda, tinha usado com vara aguçada.
Descobrira que isso facilitava a descarga de Leyden. Na verdade, a vara pontiaguda facilitava tanto a descarga que a garrafa de Leyden não conseguia nem mesmo ser carregada. Podia-se tentar pôr carga nas garrafa, mas ela escapava pela vara pontiaguda tão depressa como era ali colocada.
Tendo provado que as nuvens e a terra formavam uma enorme garrafa de Leyden durante uma tempestade, pensou também que uma vara pontiaguda poderia descarregar as nuvens da terra.
Vamos supor que uma vara metálica e pontiaguda fosse colocada no telhado de uma casa e fios a ligassem ao solo. Desse modo, a casa e a área em torno dela nunca acumulariam carga demasiada. A carga escaparia sempre que fosse criada, e nunca haveria necessidade de uma descarga violenta. Em outras palavras, uma casa nunca seria atingida por um raio.
Em 1753, um ano após sua experiência com a pia, Franklin mostrou ao mundo como se podia instalar um “pára-raios” numa casa. Todas as colônias americanas e os povos da Europa começaram a pôr pára-raios nas casas.
Foi a primeira vez que uma descoberta sobre a eletricidade se tornou um benefício para o mundo inteiro.
Em 1771, as experiências sobre eletricidade tomaram novo rumo. Um biólogo italiano, Luigi Galvani, fazia experiências com garrafas de Leyden. Também trabalhava com pernas de rãs, que não tinham nada que ver com eletricidade.
A centelha de uma garrafa de Leyden atingiu uma dessas pernas e ela contraiu-se. Galvani ficou confuso, porque normalmente os músculos se contraem apenas quando vivos. A eletricidade fazia músculos mortos agirem como se estivessem vivos. Poderia a eletricidade Ter algo a ver com a vida?
Naturalmente, Galvani conhecia as experiências de Franklin e sabia que o raio era uma enorme centelha elétrica. Vamos supor que pusesse algumas pernas de rãs na janela, do lado de fora, durante uma tempestade. Enchendo a tempestade as nuvens, o ar e a terra de eletricidade, será que os músculos mortos se contrairiam?
Quando uma tempestade se formou, pegou algumas pernas de rãs com as quais estava trabalhando e pendurou-as em ganchos de latão, para evitar que fossem atiradas à rua. Depois estendeu-as sobre as grades de ferro, do lado de fora de sua janela.
Realmente os músculos se contraíam de ficaram contorcendo-se durante algum tempo.
Mais tarde fez nova experiência sem nenhuma tempestade, com o céu completamente claro. Os músculos mais uma vez se contraíram. Na verdade, contraíam-se sempre que estavam em contato com dois metais diferentes, como latão e ferro, por exemplo, ao mesmo tempo.
Galvani concluiu que deveria haver ligação entre a eletricidade e a vida. Os seres vivos estavam cheios de eletricidade. Imaginou que essa “eletricidade animal” não desaparecia imediatamente após a morte. Por isso os músculos ainda podiam sofre contrações quando tocados por dois metais diferentes.
Então, outro cientista italiano, chamado Alexandre Volta, começou a ficar intrigado com essa contração muscular. Havia feito algumas experiências com eletricidade e não estava convencido de que os músculos tivessem quantidades incomuns de eletricidade.
Quando os músculos entravam em contato com dois metais diferentes, talvez a eletricidade fosse produzida pelos metais, e não pelos músculos. Se fosse realmente assim, talvez os metais pudessem ser usados para produzir eletricidade sem os músculos. Em vez de colocar um músculo úmido entre dois metais diferentes, não seria melhor pôr entre eles um pedaço de cartão úmido?
Em 1794, Volta descobriu que podia produzir eletricidade sem fricção e sem nenhuma espécie de tecido muscular. Imaginemos dois metais diferentes colocados em água salgada, que é condutora. Admitamos que os metais sofressem transformações químicas. Estas transformações de certo modo envolveriam eletricidade. Um dos metais ganharia fluido elétrico e se tornaria positivamente carregado, enquanto o outro perderia, e se tornaria negativamente carregado.
Volta continuou as experiências tentando produzir maior quantidade possível de carga. Dm 1800, preparou uma série d tigelas com água salgada. Ligou a primeira tigela à segunda com uma tira de cobre curvo, de modo que as extremidades da tira tocassem a água salgada. Ligou a segunda à terceira com uma tira de estanho, a terceira foi ligada à quarta com uma tira de cobre, a seguinte foi ligada com estanho e assim por diante.
As tiras de cobre mostravam carga positiva e as de estanho, carga negativa. As cargas pareciam somar-se uma à outra, de modo que a carga de todas as tigelas juntas era muito maior do que seria se uma única tigela fosse usada.
Então Volta ligou a tira de estanho, numa das extremidades da linha de tigelas, à tira de cobre na outra extremidade, com um fio de metal. O excesso de fluido elétrico numa das extremidades corria pelo fio de metal para a outra ponta, onde havia uma deficiência de fluido elétrico. Enquanto continuava a verificar-se a transformação química envolvendo o estanho e o cobre, uma carga positiva continuaria sendo formada numa extremidade e uma carga negativa na outra. A eletricidade continuaria correndo através do fio, enquanto a transformação química perdurasse.
Quando se tem uma quantidade de objetos, pode-se chamá-la de “pilha”. Volta tinha um quantidade de tiras de metal em tigelas de água salgada que produziam carga elétrica. Por isso, foi chamada de “pilha elétrica”, e Volta foi o homem que a inventou.
Até o tempo de Volta, as experiências tinham sido feitas com eletricidade que permanecia em determinado objeto. Ela praticamente não se movia. Era, por isso, chamada de eletricidade “estática”.
A pilha de Volta, contudo, produzia eletricidade que corria constantemente através de um fio por longo tempo. Ele havia produzido a primeira “corrente elétrica”.
Imediatamente começaram-se a fazer experiências com esse novo engenho. Construíram-se pilhas novas e melhores. Descobriu-se que, se transformações químicas podiam produzir uma corrente elétrica, uma corrente elétrica também podia produzir transformações químicas.
Em 1800, no próprio ano em que a pilha foi inventada, um inglês chamado William Nicholson, usou uma corrente elétrica para decompor a água em dois gases, o hidrogênio e o oxigênio. Mostrou que a água era uma combinação química desses dois gases.
Em 1807, outro inglês, chamado Humphry Davy, usou uma corrente elétrica para fragmentar algumas substâncias rochosas, que ninguém havia conseguido dissolver antes. Obteve novos metais que eram desconhecidos até ali.
Então, em 1819, um cientista dinamarquês, Hans Cristian Oersted, descobriu que, quando um fio conduzia uma corrente elétrica, agia como um ímã. As duas atrações, eletricidade e magnetismo, aparentemente tinham alguma ligação, afinal de contas.
Imediatamente, começou-se a estudar o novo fato. Em 1829, um cientista americano, Joseph Henry, mostrou que, se um fio que conduzia corrente elétrica fosse enrolado em bobinas, a atração magnética tornava-se mais forte. Cada bobina de fio parecia reforçar a bobina seguinte. Era, contudo, necessário enrolar o fio todo com seda, para que a corrente não saltasse de uma bobina para outra, mas fosse forçada a viajar através de toda a extensão do fio.
Se a bobina de arame fosse enrolada em torno de um pedaço de ferro, o impulso magnético tornava-se ainda mais forte. Era muito mais forte do que o de qualquer ímã comum. E o que é mais, esse “eletroímã podia ser facilmente ligado e desligado. Se os fios fossem presos a uma pilha, o impulso magnético começava. Se fossem afastados da pilha, o impulso magnético parava.
Henry usou um pequeno eletroímã para levantar uma tonelada de ferro. Podia mover o ferro para onde quisesse e depois soltá-lo.
Um cientista inglês, Michael Faraday, descobriu que, do mesmo modo que a eletricidade podia produzir magnetismo, o magnetismo podia ser usado para produzir eletricidade. Em 1831, mostrou que, pondo-se um disco de cobre a girar perto de um ímã, se produz no cobre uma corrente elétrica.
Se uma máquina a vapor fosse usada para manter o disco de cobre a girar, uma corrente elétrica podia ser tirada dele, durante o tempo em que a máquina a vapor estivesse trabalhando. Faraday produzia ou “gerava” eletricidade desse modo, e havia inventado o “gerador elétrico”.
Representou esse melhoramento da pilha elétrica, que produzia eletricidade somente quando certos metais caros, como cobre, estanho e zinco, eram usados em reações químicas. O gerador elétrico trabalhava queimando o carvão, que movimentava a máquina a vapor, e era muito mais barato.
A começar pela descoberta de Faraday, foi possível ter eletricidade a preço baixo em grande quantidade.
Naquele mesmo ano, Joseph Henry inverteu a descoberta de Faraday, Faraday havia feito um disco giratório de cobre produzir eletricidade. Henry mostrou como uma corrente elétrica podia fazer girar uma roda. Ele havia inventado o “motor elétrico”.
O motor elétrico podia ser ligado e desligado a qualquer momento. Um pequenino motor podia manter pequenos objetos em movimento. Um motor gigantesco podia manter enormes objetos em movimento. Era possível fazer com que a eletricidade produzisse o trabalho que os músculos dos seres humanos e dos animais vinham produzindo através de toda a história.
Pouco a pouco, os inventores foram usando a corrente elétrica para produzir coisas impressionantes.
O inventor americano americano, Samuel F. B. Morse, construiu o primeiro “telégrafo” elétrico em 1844. A corrente elétrica em um longo fio podia ser iniciada e terminada de modo que mandasse sinais curtos (pontos) e sinais longos (traços). Os pontos e traços eram dispostos de maneiras diferentes para cada letra do alfabeto.
Esse “código Morse” tornou possível enviar mensagens a longas distância na velocidade da eletricidade, que é 300.000 km por segundo.
Em 1876, um inventor escocês, Alexandre Graham Bell, desenvolveu um método de fazer a corrente elétrica ficar mais fraca ou mais forte, de modo que produzisse ondas sonoras. Havia sido inventado o “telefone”.
Em 1879, o inventor americano Thomas Alva Edison descobriu um meio de passar uma corrente elétrica por um fio de carvão em arco, num recipiente de vidro sem ar. A corrente elétrica aquecia o filamento até que ela ficasse incandescente. Não havendo ar, não podia inflamar-se, mas apenas continuar brilhando. Edison havia inventado a “luz elétrica”.
Muitas outras invenções surgiram. Nos dias atuais, todos recorremos à corrente elétrica. Empregamo-la para cozinhar, para aquecer, para esfriar, congelar e iluminar; para fazer funcionar nosso toca-discos, nosso rádio, nossa televisão. Usamo-la em escova de dentes, torradeiras e fadas elétricas.
Não há limites para os seus muito empregos. A cada ano, intensifica-se o seu uso. Assim torna-se a nossa vida completamente diversa da dos antepassados.
Tudo é o resultado da curiosidade de muitos homens que, durante séculos, desejaram entender a natureza e a ação das coisas.

 

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publicado por Sou às 21:50
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