Domingo, 28 de Setembro de 2008

 

 

Havia na floresta uma cabana, modesta morada de lenhadores. Nessa cabana, moravam um velhinho e uma velhinha que eram irmãos, mas pouco amigos. Por aqui começa esta história.

Desconfio que não estou a dizer a verdade toda.

Talvez os dois irmãos fossem amigos, lá muito no fundo dos seus corações de velhos rabugentos, mas quem os visse e ouvisse a enfronharem-se constantemente por dá cá aquela palha, tal não diria. A velhinha, então, era a mais abespinhada. Mal o irmão entrava em casa e fechava a porta, começava a bulha.

- Estou farta de te recomendar, Gregório Epifanov, para não entrares sem primeiro bater à porta. Assustas o gato, assustas-me a mim e abalas a casa com essas botifarras. Porque não te descalças à porta?

- Porque já sei, mana Agripina, que estás à espera que eu venha com o carrego de gravetos para te acender o lume.

Se eu tivesse a certeza de vir encontrar a casa aquecida, a sopa a fumegar e o chá a ferver na chaleira, descalçava-me à porta, pois claro! Mas que encontro afinal: cinzas frias na lareira e uma velha  a um canto, enrolada em cobertores, a resmungar com voz de bruxa.

 

A mana Agripina saltava do seu canto e espetava o dedo agudo, diante do nariz do irmão:

-- Bruxa? Eu? E tu o que és? Um velho urso paspalhão a sonhar com palácios e criados de nariz no chão. Julgas que sou tua criada, julgas?

- Nem eu sou teu criado e trago-te este baraço de lenha para aqueceres a ceia, velha rezingona.

Ela virava-lhe as costas e voltava para o seu canto, resmungando:

- Passo bem sem ceia. Se queres comer o caldo, come-o frio ou aquece tu o lume.

Não estou para me maçar com ursos velhos!

Assim viviam os dois manos. Assim passavam os serões.

De manhã, chovesse ou fizesse sol, havia sempre tempestade na cabana.

- Levanta-te, urso preguiçoso! - gritava a velha Agripina, sacudindo a cama do irmão.

- Deixa-me em paz, velha ruim. Passo dia a trabalhar. Portanto, tenho direito de dormir o que me apetece e o que o meu corpo pede - respondia-lhe o velho, com a cabeça escondida nos cobertores.

- Isso são desculpas de urso.

Se te não levantas já, vou ao poço, encho a selha e despejo-ta pela cabeça abaixo - ameaçava a velha.

Gregório Epifanov levantava-se, pegava no machado e ia-se embora, sem dar os bons-dias nem comer as sopas da manhã.

 

 

 

António Torrado

ilustrações de Cristina Malaquias

 

 

 

 

 

António Torrado nasceu em Lisboa, em 1939.
Escritor de livros para crianças (domínio no qual a sua bibliografia é particularmente vasta — conta com mais de 100 títulos publicados em várias editoras), poeta, ficcionista, dramaturgo, autor de obras de pedagogia e de investigação nessa área, é por excelência um contador de histórias, estando muitos dos seus livros e contos traduzidos para várias línguas.
Foi galardoado com o Prémio Calouste Gulbenkian de Livros para Crianças (1980), o Prémio de Teatro Infantil da Secretaria de Estado da Cultura (1984), o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (1988), entre muitos outros.
Alguns dos seus livros foram incluídos na Lista de Honra do IBBY – Internacional Board on Books for Young People –, nos anos de 1974 e 1996.
Segundo o crítico e investigador José António Gomes, “Torrado impôs-se como uma das figuras de maior relevo da nossa literatura do pós-25 de Abril e dificilmente se encontrará hoje um autor que, de forma tão equilibrada, saiba dosear em livro o humor, a crítica e os sinais de um profundo conhecimento do imaginário infantil.”

 

www.assirio.com/autor.php

 

 



publicado por Sou às 23:03
mais sobre mim
Setembro 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
12



29


pesquisar neste blog
 
blogs SAPO