Domingo, 28 de Setembro de 2008

 

 

Um dia, Gregório Epifanov encontrou o urso da floresta.

Não era a primeira vez que urso e lenhador se encontravam. Das outras vezes, empunhando o machado, enfrentara o bicho e obrigara-o a fugir de quem era mais valente. Outros tempos...

Agora, Gregório Epifanov sentia-se velho demais para lutar. O machado caiu-lhe das mãos e os joelhos dobraram-se... Rendia-se antes do combate.

O urso que decidisse o que queria fazer dele.

- Não quero nada de ti - disse-lhe o urso. - Estás muito fraco para que possas medir forças comigo. Como te deixaste envelhecer desta maneira, homem?

Gregório Epifanov murmurou:

- Os anos, uns em cima dos outros, pesam-me nos ombros.

A neve de muitos invernos caiu-me na cabeça e embranqueceu-me os cabelos. De tanto mastigar pão duro, caíram-me os dentes. Os trabalhos custosos e as moléstias chuparam-me a carne e curtiram-me a pele. Assim envelheci.

Ficaram a conversar como bons amigos.

A certa altura, o velho lenhador lamentou-se do mau génio da irmã que não parava de dizer que ele não valia nada e que estava sempre a tratá-lo de urso paspalhão.

- E isso ofende-te? - perguntou-lhe o urso.

Pois claro que se ofendia. Se não fosse ele, a miséria da choupana ainda seria maior.

Com o que ele ganhava a vender lenha, ambos comiam. Além de que não era um urso, era um homem.

Então o urso teve uma ideia. Chegou o focinho à orelha do lenhador e segredou-lhe o seu plano. Foi uma risota!

Na manhã seguinte, repetiu-se a cena de todos os dias.

Com os modos de sempre, a velha Agripina abanou a cama, onde, muito enrolado nos cobertores, o irmão dormia.

- Levanta-te, urso madraceiro - gritava ela. - Levanta-te que são horas de te pores a andar.

Voltado para a parede, o irmão não dava resposta.

- Ah, sim!?

Então deixa estar que hoje é que vais saber como é fria a água do poço - disse a velha.

Dito e feito. Encheu a selha, carregou com ela e despejou-a em cima da cama do infeliz Gregório Epifanov, gralhando o que se segue:

- Prova desta água, urso paspalhão, mandrião e resmungão, a ver se te emendas!

Espalharam-se os cobertores e da cama saltou não o lenhador mas um urso, um urso autêntico que se pôs a correr atrás da velha, pela casa fora. Ela, aterrorizada, tropeçou na selha, caiu, levantou-se, fugiu, sentindo sempre as garras do urso quase a tocarem-lhe.

- Quem me acode! - gritava ela que metia pena.

Valeu-lhe o irmão que entrou, nesse instante, na cabana, empunhando um machado. Arremedou-se, ali, uma luta que mais parecia uma dança... O urso fez de conta que estava cheio de medo e, fingindo uma grande aflição, fugiu para a floresta donde viera.

A partir desse dia, a velha Agripina passou a tratar o mano com melhores modos. Fora uma ou outra rabugice, os dois irmãos começaram a dar-se muito bem e voltaram a ser bons amigos. As sementes de amizade, escondidas no fundo dos seus corações cansados, estavam a dar flores...

Gregório Epifanov nunca mais se esqueceu do urso que lhe prestara tão bons serviços. Sempre que pode, deixa ficar, na cavidade aberta num velho tronco, um boião de mel que se destina ao seu amigo. Parece que os ursos são muito gulosos.

 

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publicado por Sou às 23:14
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