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Sou

Sou

31 Ago, 2008

Viagem

 

 

Nós somos tão, tão frágeis, tão, tão descartáveis . Apesar de toda a ciência, de todo o progresso da medicina, de toda a tecnologia, de  todas as orações perante o universo somos tão descartáveis, a nossa esperança é sermos amados e protegidos por Deus, mas quem é Deus? Quem entra nos seus mistérios? A esperança para a dor de quem fica, já que estar morto ao que parece é não sentir mais dor, nem frio, nem calor, é entrar no nada humano, é entregue à Fé. Pela fé imaginamos que seguimos para outro mundo paralelo, não corpóreo, mas incorpóreo,... e esta é uma caminhada solitária, a fé é como imaginar, como sonhar acordado, é deixar o nosso cérebro  criar um lugar assim confortável, doce, abrigado, cheio de amor,  para aqueles que um dia estiveram entre nós e nos abraçaram, nos beijaram, nos arreliaram, nos aborreceram, nos magoaram, nos amaram, ... Não estou triste, há é coisas que me fazem sentir tão frágil como uma criança de colo e é nessas alturas que eu choro, o que querem dizer estas lágrimas que deito por alguém que nunca conheci? A dor dos outros também me penetra, como se outros não houvessem e fossemos apenas um.    
 Uma amiga minha, há um mês atrás, estava desesperançadada porque os médicos tinham dado ao irmão apenas três meses de vida. A esperança de reverter o quadro, de prolongar a vida por mais tempo, estava numa cirurgia  extremamente minuciosa e de grande risco. A cirurgia foi bem sucedida, o irmão da minha amiga teve uma boa recuperação pós operatória e  regressou a casa feliz, compreendendo que a vida era uma dádiva preciosa, planeou e prometeu a si próprio e à sua família, que iria viver de outra forma, os  bens supérfluos, a acumulação de coisas já não lhes interessava, a vida era o que mais de precioso possuia.  No entanto, os caprichosos "deuses" tinham outros planos para ele, após recuperar, exatamente trinta dias após a cirurgia, foi chamado e partiu para o céu dos profetas, aquele céu que só conseguimos aceder pela fé, pela imaginação, pelo sonhar acordado.
 
 
 

 

 

  

"E então um homem disse, Fala-nos do Auto-conhecimento.
E ele respondeu, dizendo:

Os vossos corações conhecem em silêncio os segredos dos dias e das noites.
Mas os vossos ouvidos anseiam pelo som do conhecimento do vosso coração.


Vós sabeis por palavras aquilo que sempre soubestes em pensamento.

Tocais com a ponta dos dedos o corpo nu dos vossos sonhos.

E ainda bem que assim é.

A nascente oculta da vossa alma deve erguer-se e correr a murmurar para o mar, e o tesouro das vossas profundezas infinitas será revelado perante os vossos
olhos.

Mas que não haja medidas para pesar o vosso tesouro desconhecido;
E não procureis as profundezas do vosso conhecimento com limites.

Pois o ser em si não tem limites nem medidas.

Não digais "Encontrei a verdade", mas antes "Encontrei uma verdade."

Não digais "Encontrei o caminho para a alma", mas antes "Encontrei a alma a seguir o meu caminho''.

Pois a alma percorre todos os caminhos.

A alma não percorre uma linha, nem cresce como um caniço.

A alma desvenda-se a si própria como um lotus de incontáveis pétalas.


Por Kahlil Gibran em "O Profeta""

 

Anjo acordando o profeta ELIAS -óleo sobre tela de Juan Antonio de Frias e Escalante

 

  

"«Dais muito pouco quando estais a dar o que vos pertence.
Só quando vos dais a vós próprios é que estais verdadeiramente a dar.

Pois o que são as vossas pertenças senão aquilo que guardais com medo de necessitar amanhã?

E amanhã, que trará o amanhã ao cão prudente que vai enterrando ossos na areia sem marcas enquanto segue os peregrinos até à cidade santa?

E o que é o medo da necessidade senão a própria necessidade?

Não é o receio da sede que sentis quando o vosso poço está cheio, da sede insaciável?

Há aqueles que dão pouco do muito que têm, e fazem-no para conseguirem reconhecimento e o seu desejo oculto torna as suas dádivas sem valor.

E há aqueles que, tendo pouco, tudo dão.

Esses são os que acreditam na vida e na magnificência da vida e o seu cofre nunca está vazio.

Há aqueles que dão com alegria, e essa alegria é a sua recompensa.
E há aqueles que dão com dor e essa dor é o seu baptismo.

E há aqueles que dão e não conhecem a dor ao dar, nem procuram alegria, nem dão para se sentirem virtuosos; Dão, tal como no vale a murta exala o seu perfume para o espaço.

E através das mãos desses que Deus fala, e por detrás dos seus olhos que Ele sorri para a terra.

É bom dar quando vos é pedido, mas é melhor dar se vos pedirem só através da compreensão; E para o que tem as mãos abertas a busca daquele que vai receber é uma alegria maior do que dar.

E que podereis conservar?
Tudo o que possuís será um dia dado.
Por isso dai agora, agora que a época da dádiva pode ser vossa e não dos vossos herdeiros.

Dizeis muitas vezes "Eu daria, mas só a quem o merecesse".
As árvores do vosso pomar não dizem isso, nem os rebanhos nas pastagens. Eles dão para poder viver, pois não dar é perecer.

Aquele que é merecedor das suas noites e dos seus dias é com certeza merecedor de tudo.
E aquele que mereceu beber do oceano da vida merece encher a taça no vosso ribeiro.

E que deserto maior haverá do que aquele que assenta na coragem e na confiança de receber?

E quem sois vós para que os homens se desnudem e exponham o seu orgulho, para que os possais ver nus e com o orgulho a descoberto?

Certificai-vos primeiro de que sois dignos de dar e de ser instrumento da dádiva. Pois, na verdade, é a vida que dá à vida, enquanto vós, que vos considerais dadores, não passais de testemunhas.

E vós, os que recebeis – e todos recebeis – não carregueis o fardo da gratidão, pois estareis a colocar um jugo sobre vós e sobre aquele que dá.

Erguei-vos antes juntamente com o que dá, sobre essas dádivas como se elas fossem asas; Porque ter demasiada consciência da vossa dívida é duvidar da generosidade daquele que tem a terra de coração livre como mãe e Deus como pai.»

excerto do livro O Profeta"  Kahlil Gibran

 

o

 

 

 

"No jardim de um hospital psiquiátrico conheci um jovem formoso de rosto pálido e encantador...

Sentando-me a seu lado num banco, perguntei-lhe:

- Porque estás aquí?

Olhando-me, com estranheza, disse:

- Essa é uma pergunta pouco própria, mas, de qualquer modo, responderei.

Meu pai quis fazer de mim uma cópia dele; o mesmo ocorreu com o meu tio. Minha mãe queria que fosse igual ao seu pai. Minha irmã apontava o seu esposo, oficial da marinha, como o modelo de perfeição a seguir. Meu irmão, excelente atleta, pensava que eu devia ser como ele.

E também os meus professores, de filosofia, de música, de matemática, me incitavam a ser um reflexo deles num espelho.

Por isso vim para aqui. Parece-me mais saudável. Pelo menos poderei ser eu mesmo.

De repente, voltou-se para mim, e disse:

Diz-me tu, agora. Vieste parar a este lugar guiado pela educação e pelos bons conselhos?

Eu respondi:

- Não, sou só um visitante.

Então ele disse:

- Ah!!!. És um daqueles que vive no manicómio, mas, do outro lado do muro?


 Khalil Gibran

 

 

Dos Filhos

 


(...) E uma mulher que carregava o filho nos braços disse: “Fala-nos dos filhos.”

 

 

E ele disse:

 

 

Vossos filhos não são vossos filhos.

 

 

São filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma.

 

 

Vêm através de vós, mas não de vós.

 

 

E, embora vivam convosco, a vós não pertencem.

 

 

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,

 

 

Pois eles têm seus próprios pensamentos.

 

 

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;

 

 

Pois suas almas moram na mansão do amanhã, que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

 

 

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis faze-los como vós,

 

 

Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

 

 

Vós sois o arco dos quais vossos filhos, quais setas vivas, são arremessados.

 

 

O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com Sua força para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

 

 

Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria:

 

 

Pois assim como Ele ama a flecha que voa, ama também o arco, que permanece estável.

 

 

 

Kahlil Gibran

 



Então, uma mulher disse: “Fala-nos da alegria e da tristeza.”

E ele respondeu:
“ A Vossa alegria é vossa tristeza desmascarada.

E o mesmo poço que dá nascimento a vosso riso foi muitas vezes preenchido com vossas lágrimas.

E como poderia não ser assim?

Quanto mais profundamente a tristeza cavar suas garras em vosso ser, tanto mais alegria podereis conter.

Não é a taça em que verteis vosso vinho a mesma que foi queimada no forno do oleiro?

E não é a lira que acaricia vossas almas a própria madeira que foi entalhada à faca?

Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria.

E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite.

Alguns dentre vós dizeis: ‘A alegria é maior que a tristeza’, e outros dizem: ‘Não, a tristeza é maior.

’Eu, porém, vos digo que elas são inseparáveis.

Vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama.

Em verdade, estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa tristeza e vossa alegria.

É somente quando estais vazios que estais em equilíbrio.

Quando o guarda do tesouro vos suspende para pesar seu ouro e sua prata, então deve a vossa alegria e a vossa tristeza subir ou descer.”


Khalil Gibran

 

 

 

 

 O seu nome completo é Gibran Kahlil Gibran. Assim assinava em árabe. Em inglês, preferiu a forma reduzida e ligeiramente modificada de Khalil Gibran. É mais comumente conhecido sob o simples nome de Gibran.

1883 - Nasceu em 6 de janeiro, em Bsharri, nas montanhas do Líbano, a uma pequena distância dos cedros milenares. Tinha oito anos quando, um dia, um temporal se abate sobre sua cidade. Gibran olha, fascinado, para a natureza em fúria e, estando sua mãe ocupada, abre a porta e sai a correr com os ventos.

Quando a mãe, apavorada, o alcança e repreende, ele lhe responde com todo o ardor de suas paixões nascentes: "Mas, mamãe, eu gosto das tempestades. Gosto delas. Gosto!" (Um de seus livros em árabe será intitulado Temporais).

1894 - Emigra para os Estados Unidos, com a mãe, o irmão Pedro e as duas irmãs Mariana e Sultane. Vão morar em Boston. O pai permanece em Bsharri.

1898/1902 - Vota ao Líbano para completar seus estudos árabes. Matricula-se no Colégio da Sabedoria, em Beirute. Ao diretor, que procura acalmar sua ambição impaciente, dizendo-lhe que uma escada deve ser galgada degrau por degrau, Gibran responde: "Mas as águias não usam escadas!"

1902/1908 - De novo em Boston. Sua mãe e seu irmão morrem em 1903. Gibran escreve poemas e meditações para Al-Muhajer (O Emigrante), jornal árabe publicado em Boston. Seu estilo novo, cheio de música, imagens e símbolos, atrai-lhe a atenção do Mundo Árabe. Desenha e pinta numa arte mística que lhe é própria. Uma exposição de seus primeiros quadros desperta o interesse de uma diretora de escola americana, Mary Haskell, que lhe oferece custear seus estudos artísticos em Paris.

1908/1910 - Em Paris. Estuda na Académie Julien. Trabalha freneticamente. Freqüenta museus, exposições, bibliotecas. Conhece Auguste Rodin. Uma de suas telas é escolhida para a Exposição das Belas-Artes de 1910. Nesse ínterim, morrem seu pai e sua irmã Sultane. 1910 - Volta a Boston e, no mesmo ano, muda-se para Nova York, onde permanecerá até o fim da vida. Mora só, num apartamento sóbrio que ele e seus amigos chamam As-Saumaa (O Eremitério). Mariana, sua irmã, permanece em Boston. Em Nova York, Gibran reúne em volta de si uma plêiade de escritores libaneses e sírios que, embora estabelecidos nos Estados Unidos, escrevem em árabe com idênticos anseios de renovação. O grupo forma uma academia literária que se intitula Ar-Rabita Al-Kalamia (A Liga Literária), e que muito contribuiu para o renascimento das letras árabes. Seus porta-vozes foram, sucessivamente, duas revistas árabes editadas em Nova York: Al-Funun (As Artes) e As-Saieh (O Errante).

1905/1920 - Gibran escreve quase que exclusivamente em árabe e publica sete livros nessa língua: 1905, A Música; 1906, As Ninfas do Vale; 1908, Espíritos Rebeldes; 1912, Asas Partidas; 1914, Uma Lágrima e um Sorriso; 1919, A Procissão; 1920, Temporais. (Após sua morte, será publicado u m oitavo livro, sob o título de Curiosidades e Belezas, composto de artigos e histórias já aparecidas em outros livros e de algumas páginas inéditas).

1918/1931 - Gibran deixa, pouco a pouco, de escrever em árabe e dedica-se ao inglês, no qual produz também oito livros: 1918, O Louco; 1920, O Precursor; 1923, O Profeta; 1927, Areia e Espuma; 1928, Jesus, o Filho do Homem; 1931, Os Deuses da Terra. (Após sua morte serão publicados mais dois: 1932, O Errante; 1933, O Jardim do Profeta.) Todos os livros em inglês de Gibran foram lançados por Alfred A. Knopf, dinâmico editor norte-americano com inclinação para descobrir e lançar novos talentos. Ao mesmo tempo em que escreve, Gibran se dedica a desenhar e pintar. Sua arte, inspirada pelo mesmo idealismo que lhe inspirou os livros, distingue-se pela beleza e a pureza das formas. Todos os seus livros em inglês foram por ele ilustrados com desenhos evocativos e místicos, de interpretação às vezes difícil, mas de profunda inspiração. Seus quadros foram expostos várias vezes com êxito em Boston e Nova York. Seus desenhos de personalidades históricas são também célebres.

1931 - Gibran morre em 10 de abril, no Hospital São Vicente, em Nova York, no decorrer de uma crise pulmonar que o deixara inconsciente.

 

 www.paralerepensar.com.br/gibran.htm

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